Mudanças climáticas preocupam a indústria

Nelson Pereira dos Reis

Diretor titular do Departamento de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)

A crise financeira mundial ajudou a desviar os holofotes de um assunto que, até bem pouco tempo, estava na ordem do dia: as mudanças climáticas.

O tema, debatido à exaustão desde o lançamento do documentário Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, ganhou especial relevância depois que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou um estudo que reconhecia a ação humana como principal elemento desencadeador do fenômeno.

Como a discussão ficou meio de lado nos últimos dois meses, não repercutiu muito a disponibilização, no início deste mês, do Plano Nacional Sobre Mudança do Clima (PNMC–Brasil), feita pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima do governo federal.

Ele nasceu especialmente para ser apresentado durante a 14 Conferência do Clima das Nações Unidas, em Poznan, na Polônia, na primeira quinzena de dezembro. Mas o documento é de uso bem mais amplo do que uma simples exposição durante um evento.

O Plano governamental discorre sobre vários temas fundamentais, como a elaboração de um inventário das emissões de gases de efeito estufa, notadamente o dióxido de carbono, o óxido nitroso, o metano e os hidrocarbonetos.

Os gases de efeito estufa estão presentes na natureza e são responsáveis por reter o calor na superfície terrestre. Sem eles, a vida na Terra seria inviável. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente , o que está ocorrendo é um desequilíbrio na emissão desses gases, decorrente da ação humana.

E, por ação humana, deve-se entender tudo, até os mais singelos gestos do cotidiano. Quando fazemos um prato de comida, usando gás de botijão ou encanado, estamos liberando gases de efeito estufa. Nos ambientes urbanos, eles são gerados principalmente pela queima de combustíveis fósseis (gasolina e óleo diesel) e liberados na atmosfera pelo escapamento dos veículos. Já nos ambientes rurais, as emissões se devem, sobretudo, à queima da vegetação e a algumas atividades agropecuárias.

As atividades comerciais e industriais também são potenciais emissoras, mas o inventário do governo brasileiro traz um dado importante: as atividades industriais do País respondem por apenas 9% do total de emissões de , 1% das emissões de gás metano e 4% de óxido nitroso. As emissões deste último pelo setor industrial devem-se, em sua maior parte, à produção de ácido adípico e ácido nítrico (aplicados, respectivamente, na fabricação de resinas, espumas flexíveis, entre outros e em fibras sintéticas, corantes e explosivos).

Quanto à emissão de compostos orgânicos voláteis, denominados hidrocarbonetos, (por exemplo, os compostos da gasolina que se evaporam), o Plano informa que os processos industriais são responsáveis por aproximadamente 15% do total emitido.

Vale lembrar que, em abril de 2008, o governo de São Paulo apresentou um relatório parcial sobre emissões de gases efeito estufa. Neste documento, denominado Inventário Estadual de Fontes Fixas Emissões de - Fontes Industriais - Combustíveis Fósseis, que contou com o fornecimento voluntário de informações pelas indústrias paulistas, constava que as emissões de atribuídas às atividades industriais paulistas são da ordem de 3% do total nacional.

Esses resultados refletem a proatividade ambiental da indústria paulista nas últimas décadas. O setor químico brasileiro, por exemplo, optou livremente pela substituição do óleo combustível por gás natural. Essa medida, aliada a um aumento da eficiência dos processos químicos, contribuiu para que o setor reduzisse em 13% as emissões de .

Também merece destaque a implementação de projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) por empresas industriais de diversos segmentos. Voltados principalmente à compensação das emissões de , todos foram aprovados pela Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima do Brasil.

As entidades representativas da indústria paulista estão conscientes do importante papel que devem desempenhar no âmbito das mudanças climáticas, e têm tomado iniciativas para o equacionamento das emissões de gases de efeito estufa. Uma delas é a Campanha Menos Carbono Mais Sustentabilidade, promovida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A mesma Fiesp tem trabalhado, por meio de um protocolo firmado com o governo estadual, para gerar e difundir conhecimentos junto às múltiplas cadeias produtivas de São Paulo, sempre com o objetivo de estimular a adoção de tecnologias modernas e de colocar nosso sistema produtivo na vanguarda da questão ambiental no mundo.

Assim, para a indústria paulista, o desenvolvimento sustentável não é uma expressão bonita, tomada de empréstimo ao marketing empresarial. Mas, sim, um compromisso com o bem-estar de toda a sociedade e com as futuras gerações, que devem ter respeitado seu direito a herdar um meio ambiente saudável e equilibrado.