Negócios e Gestão Ambiental

Miguel Krisgner

Presidente de O Boticário e idealizador da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza

Muitas vezes descobre-se que aquilo que se despreza vale mais do que aquilo que se exalta. Ao verbalizar tal pensamento o século I, certamente o ensaísta latino Fedro não estava preocupado em analisar a relação entre o ser humano e a natureza. Essa frase, no entanto, se encaixa perfeitamente naquilo que se discute com fervor em todo o planeta. Nunca como em nenhuma outra época o homem tentou reverter o quadro de degradação ecológica em que se encontra a Terra. Pela primeira vez na história, os estudiosos relacionaram os problemas sociais e ambientais. A crise global escancara a necessidade real de garimpar as soluções que viabilizem a construção de uma sociedade mais justa. Trata-se de um olhar diferenciado nos processos para gerenciar o mundo. Esse despertar passa pelo conceito de responsabilidade social.

Pessoas, empresas e a sociedade civil organizada tentam consolidar maneiras próprias de fazer o bem. Qualquer ação, por menor que seja, enriquece o universo que se busca através do exercício da cidadania. A boa notícia brota dentro dos escritórios, pois as próprias organizações assumem o comando dessa transformação. Esse movimento em torno da solidariedade reflete aquilo que costuma pregar a pesquisadora brasileira Deborah Leipziger, diretora da ONG Social Accountability Internacional: "O que hoje é opcional um dia será obrigação". As corporações americanas e européias já apresentaram seu negócio aliado à missão econômica social e ambiental num mesmo pacote. Enquanto americanos e europeus desfrutam dos benefícios em adotar a responsabilidade social como fator estratégico para o sucesso dos negócios, o movimento mostra-se incipiente no Brasil. No entanto, há iniciativas valorosas, principalmente quando as ações focalizam o meio ambiente. Os empresários tornaram-se pró-ativos, embalados principalmente pela asfixia pela qual passa o planeta, e por uma certa pressão da opinião pública. Afinal de contas, não há mais como suportar que as 6 mil toneladas de gás carbônico permaneçam diariamente no ar, produzindo o efeito estufa e o danoso aumento da temperatura terrestre. Muito menos que o desmatamento destrua as florestas e sepulte milhares de espécies animal e vegetal. Ao importar para cá os "cases" de sucesso, constatou-se que o desenvolvimento estruturado numa política socialmente responsável desperta o bem-estar das pessoas.

A responsabilidade ambiental transformou-se assim num compromisso corporativo com a comunidade. Dentro das organizações, as políticas de recursos humanos, engenharia, qualidade/suprimentos e segurança, por exemplo, funcionam diante de um conjunto de metas único. Desde a escolha da matéria-prima até o destino final dos resíduos líquidos, sólidos e gasosos, calcula-se que o equilíbrio entre o empreendimento rentável mediante uma gestão ambiental adequada. São atitudes que administram os efeitos colaterais dos agentes poluidores, previnem as tragédias ambientais, promovem a qualidade de vida e saúde dos funcionários e da população, divulgam uma boa imagem no mercado, gerando mais lucros, na medida em que reduzem gastos e custos operacionais.