A educação continuada e o sucesso profissional

Ronaldo de Breyne Salvagni

Professor do Departamento de Engenharia da Escola Politécnica da USP e coordenador-geral do Programa de Educação Continuada em Engenharia da EPUSP.

O que o seu amigo mecânico, especialista em carburadores, que consertava o seu carro até hoje, vai fazer com o automóvel novo que você acabou de comprar, com injeção eletrônica? Seu advogado pode atendê-lo em termos da legislação sobre softwares ou da situação atual dos direitos do consumidor?

Esses são alguns exemplos triviais da realidade de quase todas as profissões de hoje. O conhecimento, a tecnologia, as exigências da profissão crescem continuamente, e cada vez mais rápido. Isso obriga o indivíduo que deseja se manter competente (e competitivo) a acompanhar essa evolução. E como se consegue isso? Aprendendo continuamente.

No mundo inteiro vem crescendo a consciência dessa necessidade e o processo pelo qual o profissional periodicamente se atualiza na sua área está sendo chamado de educação continuada.

Moinhos de vento é claro que a situação profissional dinâmica descrita depende do contexto social. Sempre pode haver um país que se isola do exterior e grupos internos paralisam a tecnologia em algum estágio, atendendo a interesses próprios.

Apesar de existir vários exemplos recentes disso, não é caso de interesse, pois o próprio país estará se condenando à perda de competitividade e estagnação em termos mundiais. Essa tendência, ou melhor, essa necessidade de rápida evolução é muito recente.

O engenheiro que se aposentou há trinta anos, provavelmente durante toda a sua vida profissional precisou apenas de pouco mais do que aprendeu na faculdade de engenharia. E foi assim na história conhecida da humanidade.

Durante centenas de anos, as pirâmides do Egito foram sempre construídas com a mesma tecnologia. Ao longo da Idade Média, a receita de construção de moinhos de ventos era retida por corporações de artesãos e esse conhecimento secreto (sempre o mesmo) era passado de pai para filho.

Turismo profissional hoje, entretanto, isso não acontece mais. Um diploma superior não é mais um atestado de competência permanente.

O que atualmente se espera de uma faculdade é que prepare a pessoa para poder acompanhar facilmente a evolução da sua área. Deve desenvolver nela as aptidões e habilidades necessárias para isso, e não apenas entulhá-la de informações.

Em algumas áreas de ponta, como a da informática e microeletrônica, estima-se que o conhecimento tem dobrado a cada sete ou oito anos. Isso implica que, se a pessoa se formou e não aprendeu nada novo nesse período, já está sabendo apenas a metade do que deveria saber para ser um bom profissional. E como acompanhar a evolução?

Em cada área ou nicho profissional, existe uma infinidade de revistas e publicações que se propõem a manter a pessoa informada sobre o que há de mais recente. Congressos, simpósios, seminários são periodicamente realizados, reunindo participantes de uma região ou do mundo todo para comunicarem entre si.

Más-línguas dizem que há a categoria de turistas profissionais, que vão de um congresso para outro, sempre patrocinados por suas empresas. Tudo isso é útil para que a pessoa se informe sobre avanços recente, mas já há clara consciência de que não é suficiente para alguém incorporar os desenvolvimentos tecnológicos e de fato aplicá-los no seu dia-a-dia profissional.

A solução é uma forma organizada, sistemática e eficiente de disseminar os novos conhecimento e tecnologias, em termos de um verdadeiro retorno periódico aos bancos escolares. Isso porque os temas devem ser preparados de uma forma didática para serem transmitidos.

Deve ser planejado um conjunto de atividades para que os participantes realmente adquiram as novas habilidades e conhecimentos. Tudo isso ao longo de um intervalo de tempo que permita a adequada incorporação e maturação das novidades.

Cursos assim, o que se entende por educação continuada é a atividade realizada em forma de cursos (organizados de forma a realmente habilitar os participantes a utilizar os novos conhecimentos e tecnologias), a serem realizados periódica e sistematicamente ao longo de toda a vida profissional do indivíduo.

Dependendo do tema e da abrangência visada, esses cursos podem durar de alguns dias a dois ou três anos. Podem ser promovidos por diversas entidades associações profissionais, organizações setoriais, universidades, institutos de pesquisa etc., podendo ser realizados nas dependências dessas entidades ou nas próprias empresas.

Surge aqui novo problema, já visível em alguns assuntos na moda: há oferta de uma infinidade de cursos, nem todos de qualidade adequada. Como selecionar? A resposta é difícil. A opinião de antigos participantes, qual é a entidade promotora e os nomes dos professores são bons indicadores, mas nem sempre, infelizmente, garantem que um curso atenda às expectativas do participante.

Aqui é importante o fato de que nenhum curso aberto, ou seja, aquele em que os participantes se matriculam individualmente, é praticamente impossível agradar a todos, pela própria diversidade de nível e conhecimento atual, expectativas e necessidades desses participantes. Já em um curso fechado organizado para um grupo mais homogêneo de indivíduos, é maior a chance de satisfação geral.

Futuro no Brasil, a educação continuada ainda é muito incipiente em todos os setores. Os profissionais, em geral, têm pouca consciência dessa necessidade, mesmo porque a abertura comercial e tecnológica do país ao mundo e à sua competição livre é muito recente.

A oferta de cursos é pequena e ainda não sofreu um processo de seleção natural: alguns têm objetivos comerciais restritos, outros carecem de competência.

As dimensões continentais do Brasil representam outro desafio. Existem alguns centros de excelência, com bons programas de educação continuada em vários setores.

Como levar a sua atuação a abranger um Estado, que muitas vezes tem área maior que muitos países da Europa? E estender isso a profissionais de todo o Brasil? E, claro, do ponto-de-vista institucional, a existência do Mercosul torna a atuação continental um alvo importante e estratégico.

Há muito o que se fazer, de forma rápida e competente.

A própria educação continuada também evolui velozmente. E temos de acompanhá-la.