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Construção

Desperdícios na construção civil

Fábio José Alves

Engenheiro civil, pós-graduado em Gestão de Projetos pelo IETEC.

INTRODUÇÃO

A construção civil reúne ume série de atividades que afetam diretamente o bem estar social e a capacidade produtiva do país e, por envolver aspectos de natureza quantitativa e qualitativa dos recursos necessários, é imprescindível que os mesmos sejam utilizados de forma a buscar a otimização do processo como um todo, combatendo os desperdícios e as perdas, visando uma solução dinâmica, um meio para alcançar resultados e formar as empresas potencialmente competitivas.

A respeito dos desperdícios no setor da construção civil, muito se tem falado, escrito e agido. Estes são temas preocupantes e, ao mesmo tempo, apaixonantes, e que muitas vezes nos permitem discutir com a voz da razão. É inegável a evolução da construção civil no país nos últimos anos.

É sem dúvida, o setor que mais emprega mão de obra não especializada em tempos áureos e aquele que mais desemprega também em, tempos de crise. Consideremos porém, que o país padece de dois males crônicos que constituem a base da maior parte dos problemas e discussões sobre os temas abordados:

- falta de memória e divulgações adequadas;
- falta de padrões estatísticos precisos ou confiáveis.

Ao contrario do que ocorre em outros países, no Brasil, ainda hoje, temos um hiato muito grande entre as universidades e o mercado. Muitos dos trabalhos e experiências realizados não são divulgados por falta de entrosamento e pela falta de verbas destinadas para tanto. Poucas são as empresas ou associações que destinam parte de suas verbas para este fim. Por outro lado existe um temor das pessoas, empresas e associações em divulgar suas experiências ou estudos, que são muito mais consideradas como patrimônio particular, do que como um conhecimento a ser divulgado e aplicado de maneira mais ampla. Tal postura, aliado ao fato de que somos um povo que pouco cultiva ou estuda o seu passado, tem nos conduzido a um estado bastante difícil de se superar. Não é hábito no país a elaboração de estudos estatísticos e ou quantitativos e, por isso mesmo, os casos de desperdícios no setor da construção civil são verdadeiras batalhas, tratando-se de um assunto onde todos tem razão.

DESPERDÍCIO, O GRANDE DESASTRE DAS SOCIEDADES

Para eliminação dos desperdícios é imprescindível a administração participativa e os seus pressupostos. A situação atual no Brasil exige uma grande reflexão nacional para encontrarmos juntos as medidas necessárias para que, em primeiro lugar, ocorra o resgate da cidadania. Além de que as únicas coisas que evoluem são a desordem, o atrito e o desempenho ruim.
A luta pela qualidade, na qual todos devemos entrar no Brasil, mostra que é preciso mudar e ter bastante coragem para assumir os novos rumos.

O DESPERDÍCIO NA CONSTRUÇÃO CIVIL

Uma das leis mais badaladas e conhecidas no Brasil hoje, é a Lei 8.078, conhecida como Código Brasileiro de Defesa do Consumidor que, na totalidade de seus artigos, tenta os primeiros benefícios entre fabricantes, fornecedores, comerciantes e publicitários. Trata-se de um código de ampla interpretação jurídica, que atua sempre em favor do cliente ou consumidor e, introduz punições bem mais severas que suas similares Norte Americanas ou Européias.

Porém a Lei 8.078 não conseguiu eliminar o desperdício na construção civil, uma vez que falar de desperdício na construção civil sem falarmos no fator cultura, é impossível.

O desperdício, de modo geral, está intensamente, impregnado na cultura de todos os brasileiros e, pode-se identificar tal fato com facilidade quando observar o despropositado volume de lixo que é recolhido todos os dias em nossas cidades. E assim também acontece em nossa legislação civil, onde a contribuição de um conjunto de fatores adversos agrava ainda mais o problema com absurda cifra de 30% a 35% de desperdício.

Isto significa que para cada metro quadrado de área construída estaremos gastando 1,3 metros quadrados, ou ainda, para cada três unidades residenciais, comerciais ou industriais, estaremos jogando fora a quarta. Se considerarmos que o nosso déficit habitacional gira em torno de 10 milhões de moradias, precisamos de recursos equivalentes a 13 milhões de unidades para atendê-lo.

Porém, como não temos recursos suficientes para atender nem a demanda anual de hoje, vamos ficar com um débito ainda maior.

Este desperdício é um vício de muitos anos, devido à falta de concorrência em qualidade, de contratos a preço de custo nem sempre bem realizados, falta de controle na compra, na entrega e na execução e até mesmo, nas quantidades de materiais.

A Lei 8.078 (Código do Consumidor), a Lei 7.347 (Agressão ao meio ambiente) e a Lei 8.137 (Crimes contra as relações de consumo), fizeram com que houvesse um maior controle de qualidade na construção civil e a busca da diminuição das perdas por desperdício com aplicação de técnicas de Deming, Ishikawa, Juran, Crosby, etc.
Os nossos construtores perceberam a importância, a extensão, a complexidade, o conteúdo polêmico e, sobretudo empolgante, do aperfeiçoamento do processo de construção das mais variadas obras.

Estão agora a todo momento pensando nos 5M'das qualidade, ou seja:
- Mão de obra;
- Metodologia,
- Máquinas;
- Material;
- Meio ambiente.

a)Mão de Obra – Enquanto não entendermos que é nossa obrigação dar à mão de obra da construção civil condições mínimas de higiene, segurança, alimentação e salubridade para podermos exigir produtividade, estaremos rodando em círculos, sem sair do lugar, e convivendo com o desperdício. É preciso pois, assumirmos a responsabilidade social, econômica e cristã de que é da responsabilidade da indústria preparar, treinar, alimentar e tornar saudáveis os colaboradores que trabalham nas obras.

b)Metodologia – Merece uma abordagem ampla, com a criteriosa análise de cada etapa, o ciclo da construção civil, na qual se tem o empreendedor, os projetos, o planejamento, o canteiro de obras, o fabricante de materiais, a execução das obras, o controle tecnológico, o controle de qualidade, o usuário final e finalmente a manutenção do empreendimento.
É necessário introduzirmos o uso de normas e técnicas nacionais na aquisição e no emprego de materiais, na contratação de serviços e na construção em geral. Deve-se forçar cada vez mais o uso de normas do Mercado Comum Europeu que uniram as normas internacionais (ISSO) com as alemãs (DIN), as francesas (AFNOR), inglesas (BS) e até mesmo as americanas (ASTM). Normas regionais já não podem ser adotadas.

c)Máquinas – Por quanto tempo ainda no Brasil continuaremos usando o serrote manual, não afiado, movido a energia muscular, consumindo como combustível o feijão tão caro e de baixo rendimento, enquanto pequenas serras elétricas custam poucos meses de salário de um carpinteiro e produzem 20 vezes mais? Será que continuaremos a assentar tijolos fazendo 25 movimentos por pega, quando há um século Taylor e Fayol já nos ensinaram que é possível fazê-lo com cinco movimentos? Será que a caixa de argamassa não poderia estar à altura de 0,80 m ergonomicamente colocada? A máquina humana deve, sem dúvida nenhuma, ser utilizada de maneira mais inteligente.

d)Material – A aquisição de material de construção deve ser precedida por tomada de preço, estando o mesmo de acordo com o Código de Defesa do Consumidor. Da mesma maneira, o pedido de compra e a recepção na obra devem ser fiscalizados ou, o engenheiro civil vai sobreviver comprando aço desbitolado, perdendo até mesmo % em excesso de peso por metro? Será que uma escala métrica e uma balança não devem estar disponíveis em todas as obras? Enquanto o mais barato for confundido com o mais econômico, estaremos andando no caminho errado dentro da busca da maior eficiência e eficácia na construção civil.

e)Meio Ambiente – Como salienta com muita propriedade o engenheiro Luiz Alfredo Falcão Bauer, presidente da F. A Falcão Bauer, é necessário dizermos claramente que, o lixo das cidades não pode constituir-se como resultante do lixo de suas obras. Melhor dizendo, desperdício que cria junto com lixo orgânico, esconderijo, alimentação, ambiente propício para a criação de roedores, de insetos e de agentes transmissores de doenças infecto-contagiosas.

Não deveria isto ser assumido conscientemente pelos construtores?

Já existem promotores e juizes questionando se o desperdício de 30% do material comprado para uma construção não pode ser interpretado como um processo para encarecer obras e gerar maior ganho pelo construtor, quando o trabalho é por preço de custo ou, até mesmo, por volume de material consumido?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Enquanto não valorizarmos um bom projeto com especificações claras e corretas, não prestigiarmos o planejamento compatibilizado com os prazos, custos e tecnologias adequadas, não cuidarmos da higiene, segurança, alimentação e salubridade, estaremos caminhando em círculos, convivendo com os desperdícios.

É preciso que haja uma conscientização por parte das pessoas envolvidas com a produção nas empresas de construção civil, de que as perdas, tomadas sob o conceito mais amplo, dificilmente ocorrem sozinhas, e normalmente estão atreladas umas às outras, desencadeando um ciclo que envolve materiais, mão de obra e equipamentos, o que tema as perdas muito mais vultuosas do que aparentam.

A integração das áreas de conhecimento descritas no PMBOK são essenciais para o combate com sucesso destes desperdícios, não só na construção civil mas, em qualquer outra área.

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