Jornalista
Editora-chefe da BHTI Magazine
Já é consenso que o constante investimento em atualização e capacitação profissional na área de Tecnologia da Informação (TI) é um dos primeiros passos que pode ser dado no caminho da ascensão profissional. Hoje, a principal tendência do mercado é que os técnicos busquem cursos que possibilitem crescimento na carreira também por meio do desenvolvimento de habilidades gerenciais. O movimento está alinhado à demanda do mercado, que é carente de profissionais que conseguem estabelecer a relação entre as áreas táticas e estratégicas.
Atento a estas questões, Vinícius Bozzi criou, em 2007, o Instituto de Gestão em Tecnologia da Informação (IGTI), que é focado em cursos de pós-graduação com o intuito de formar competências e desenvolver treinamentos para empresas. Na avaliação do empreendedor, existe uma demanda reprimida no mercado de profissionais que fazem a interface entre a Tecnologia da Informação (TI) e a gestão do negócio.
Por esse motivo, a formação no IGTI é voltada para a gestão tanto no nível tático, quanto no estratégico. Os principais cursos ministrados no instituto são os de arquitetura de software e analista de negócios. Bozzi - que é o Diretor-Executivo da empresa ±, acredita que experiências anteriores o fizeram perceber que os cursos de pós-graduação precisam ter uma vertente prática muito forte, pois os alunos buscam na formação um conhecimento que poderá ser aplicado no dia a dia do trabalho.
"Quando estamos ensinando para adultos devemos torná-los capazes de executar algum tipo de atividade. Ao se formar, ele tem que poder afirmar que é capacitado para executar alguma função. Não adianta oferecer um conhecimento teórico se ele está distante do cotidiano", destacou. Por esse motivo, os cursos do IGTI são focados na formação de competências, para que os estudantes possam, inclusive, tomar decisões estratégicas no negócio.
Seguindo a mesma linha está a especialização em Tecnologia da Informação do Instituto de Educação Tecnológica (Ietec). O curso semestral, que já está na sua 13„ turma, irá completar sete anos em 2009. De acordo com o Diretor da área de tecnologia do curso, Antônio de Pádua Pereia, normalmente os profissionais que procuram o curso têm entre cinco e oito anos de experiência.
"Os alunos do Ietec são aqueles que estão galgando uma ocupação de média gerência nas empresas e querem usar o curso para promover este crescimento. O docente do curso de especialização não é um professor profissional, mas sim um profissional professor, com uma vasta e longa experiência técnica e também administrativa. "Este é o principal apelo do curso: mostrar a teoria na prática, efetivamente. Os alunos estão sempre muito ansiosos por isso. Eles querem saber qual é o reflexo daquilo que estamos ensinando no dia a dia."
O curso consiste em 70% de cadeiras técnicas e 30% de gerenciais, como administração de mudanças e de gestão de pessoas. "Criamos uma grade curricular que garante uma base mínima para que esse profissional consiga tecnicamente vencer os desafios, mas já comece a ter também uma visão mais administrativa, de gestão de pessoas", destacou.
A procura por cursos como o do Ietec seria, segundo o Diretor, uma comprovação de que realmente as pessoas estão buscando uma forma de aplicar a TI alinhada ao negócio. "Este tipo de profissional quer ter a habilidade na implantação de grandes sistemas, como Enterprise Resource Planning (ERP), Business Intelligence (BI), Customer Relationship Management (CRM) e cadeias de suprimentos. Normalmente pessoas que têm domínio sobre as duas áreas é que são envolvidos nos projetos."
Os cursos do Ietec são sempre permeados por cadeiras administrativas. "Não é que hoje não haja espaço para o técnico purista, para aquele que chamamos de 'desempenador de bit'. Esse é um profissional importante, necessário e que tem grande aplicação", afirmou. No entanto, quando o objetivo do profissional é se tornar ainda mais especialista na área de tecnologia, normalmente ele não procura a extensão, mas sim cursos específicos e técnicos.
Já Bozzi destacou que os três motivos que levam os profissionais a buscar uma capacitação são a possibilidade de adquirir conhecimento, crescimento financeiro e ampliação do networking. Porém, o Diretor-Executivo afirmou que, como a atualização tecnológica é algo que acontece rapidamente, o profissional tende a procurar as empresas que têm como proposta a valorização das pessoas na estrutura organizacional. "Existe uma carência de profissionais no mercado de trabalho e os analistas e técnicos acabam podendo escolher onde vão trabalhar. Quando um empreendimento tem como valor o investimento nos empregados, acabam tendo maior capacidade de captar as pessoas capacitadas e de retê-las dentro da estrutura organizacional", destacou. Segundo ele, a empresa que aposta nos seus trabalhadores entende que eles são o seu maior valor.
Cenário de BH
Hoje, há um aumento na busca por qualificação e, felizmente, Belo Horizonte tem se tornado um centro de excelência na formação de profissionais da área de tecnologia, na avaliação de Pereira. Existem, na Capital, diversas escolas e cursos, com grades curriculares e ementas muito bem elaboradas. Para ele, os profissionais estão em crescente busca por aperfeiçoamento e as escolas são bastante sérias.
Nos últimos quatro anos, houve uma mudança no cenário, pois cada vez mais as empresas deixam de investir nos seus funcionários, de acordo com o Diretor do Ietec. Segundo ele, é a 'autoformação' que predomina hoje. O fato fica claro quando se percebe que nos processos de recrutamento, as empresas buscam profissionais já formados. Quer seja com experiência de mercado, quer com uma bagagem acadêmica bem estruturada. "O processo que já estava em curso há algum tempo foi intensificado pela crise. O investimento em cursos por parte da pessoa jurídica tem decrescido sensivelmente. Isso é percebido em sala de aula. Há três anos a maior parte dos alunos estava cursando por meio de bolsas ou de recursos das empresas nas quais ele trabalhava. Hoje não", disse.
Bozzi também acredita que as empresas de TI de Belo Horizonte ainda investem pouco em cursos de formação dos profissionais. Além de o setor de TI em Minas Gerais não ter tradição na especialização, o Diretor afirmou que, com a desaceleração econômica verificada em 2009, grande parte dos investimentos em treinamento foi cortada. "Não achávamos que isso iria acontecer, pois temos a convicção de que as empresas teriam vantagens competitivas frente às demais investindo em capacitação", disse.
O Diretor-Executivo do IGTI explicou que, muitas vezes, o fato de as empresas estarem investindo menos em capacitação se deve ao fato de que esperam retorno imediato, mas os aportes em especialização dos funcionários geralmente são mais lentos, porém duradouros. Ele afirmou também que as corporações de grande porte continuam a investir em capacitação, porque além de ter mais recursos disponíveis, elas geralmente têm uma política de gestão de pessoas mais elaborada, com plano de carreira e ações que visam manter o profissional na sua estrutura.
Por outro lado, o Diretor do Ietec afirmou que de dois anos para cá houve um aumento de 100%, na procura pelo curso por parte das pessoas físicas. Segundo ele, o mais interessante é que com a crise do final de 2008 a demanda não foi afetada. Pelo contrário, houve continuidade no incremento da procura. Pereira avaliou que a os profissionais entenderam que, diante de um momento difícil, a busca de uma qualificação pode fazer com que aquela pessoa garanta o emprego e ela poderá até pleitear uma nova vaga, uma recolocação em outra empresa.
O curso do Ietec é classificado como de extensão, o que o diferencia de outros de pós-graduação, principalmente pela carga horária. A ementa do curso é elaborada a partir deste quesito, que segue as determinações dos órgãos regulamentadores da área de educação do país, como o Ministério da Educação (MEC) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Basicamente, a escolha entre fazer um curso de extensão e um de especialização se dá de acordo com a necessidade do profissional naquele momento. Quando estão galgando uma posição nova na carreira técnica, que é exatamente aquele momento que ele está deixando de ser muito técnico, os profissionais buscam cursos mais rápidos. Eles têm um retorno mais rápido deste investimento dentro da própria empresa.
O que se percebe hoje é que muitos profissionais interessados em sedimentar a sua posição administrativa nas empresas estão buscando cursos como MBA, pós-graduação ou até mesmo de mestrado. O Ietec propõe uma sequência lógica do curso de extensão que permite a conquista de mais um diploma. Hoje, qualquer aluno que faça um curso de pequena duração, com carga horária de 185 ou 195 horas, pode se candidatar a complementar a carga horária de até 400 horas e ter o título de MBA. Se fizer isso, obtém as duas certificações devidamente registradas pelo MEC. O Diretor explicou que cada um dos cursos é completo por si próprio, e, se o aluno optar pela complementação, é necessário fazer somente um novo módulo.
Conforme Pereira explicou, os formandos no curso do Ietec são fortes candidatos a gestores da área de Tecnologia da Informação das empresas. Tradicionalmente essa posição é ocupada pelas pessoas de formação técnica, mas hoje o curso começa a atrair profissionais que não são da área de TI.
“É possível ver hoje uma tendência forte de administradores, a pessoas que se formaram em cursos com bases humanas, como administradores e economistas, que estão precisando da TI para fazer uma integração com o mundo tecnológico. Não só para que eles ganhem conhecimento para conseguir interagir com a tecnologia nos processos corporativos, mas porque muitos desses administradores estão se tornando responsáveis diretos pelos setores de TI das empresas.”
Apesar da tendência de os segmentos técnicos e gerenciais começarem a atuar em conjunto, as grades da graduação ainda pecam em não fazer uma interação entre as duas áreas. “As disciplinas ainda são muito focadas em um determinado tipo de habilidade. Ter conhecimentos mínimos contábeis, de administração de empresas, de relações jurídicas e pessoais é muito importante∫, ressaltou Pereira. O mesmo se pode dizer da área de humanas, como nos cursos de administração e economia, que ainda dão pouca atenção às áreas tecnológicas. Para o Diretor, hoje, em qualquer que seja o segmento, a Tecnologia da Informação está presente. Quer seja como fim ou como meio. O administrador, atualmente, precisa conhecer os conceitos e entender minimamente sobre questões tecnológicas.
Diferentes perfis
Para Bozzi, a grande diferença entre as empresas de pequeno e grande porte é que na do primeiro tipo é exigido do profissional uma grande quantidade de competências e a participação de cada um dos empregados é primordial para o desenvolvimento da empresa. Eles precisam ser mais generalistas para resolver demandas de diversas ordens. Enquanto que na segunda, os empregados são “peças de uma engrenagem", o que demanda uma especialização maior, focada em algum tipo de conhecimento específico. As pequenas têm uma velocidade de navegação maior, e, por isso, conseguem se adaptar rapidamente caso haja alguma mudança de mercado.
Uma comprovação de que as empresas investem pouco em TI é o fato de que 70% dos cursos do IGTI são pagos pelos profissionais e somente 30% são bancados pelas empresas. Quando os empreendimentos são os responsáveis pelo aporte, é feita uma escolha de um ou dois profissionais considerados estratégicos para o negócio. A maior participação nos investimentos dos profissionais é das empresas públicas. Na avaliação do Diretor-Executivo, as empresas de pequeno e médio porte, com faturamento anual de até R$ 30 milhões investem ainda menos em capacitação.
Tendências
Pádua ressaltou que, de acordo com grandes institutos de pesquisa, os investimentos de TI sofreram menos do que de outros segmentos. A tendência é que os aportes sejam mantidos ou ampliados nos próximos meses. Não há um direcionamento para a redução. O Diretor ressaltou que tecnologias muito importantes estão chegando ao mercado, como é o caso de computação em nuvens (cloud computing) e a filosofia de TI verde, que começa a permear as empresas como uma necessidade de redução de custos em função de uma preocupação ecológica. São novas demandas que vão expor estes profissionais a um desafio novo. Eles precisam se preparar para estas novas tecnologias.
O Ietec já tem uma proposta de oferecer um curso de curta duração sobre computação em nuvens em 2010. A novidade servirá para avaliar como o mercado está respondendo a isso, não só no mundo corporativo, mas também junto aos profissionais da área. “Depois que o curso é ofertado, conseguimos avaliar o nível de procura e também de maturidade que os profissionais e as empresas têm para esse tipo de capacitação".
A partir dessa primeira experiência é que normalmente surgem cursos de maior duração ou as cadeiras que faziam parte dos cursos de curta duração são incorporadas a outros, de longa duração, segundo Pereira. “Não dá para se falar de uma capacitação em tecnologia que não esteja totalmente antenada com as novas tendências. No decorrer dos últimos anos a gente vem se adaptando para continuar atualizado com o que há de mais novo no mercado", destacou Pereira.