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:: Gestão e Tecnologia Industrial

Mapeamento de processos: auxílio à melhoria de serviços na área de saúde.

André Luis Medeiros, Ana Carla Ferreira Souza e Edson de Oliveira Pamplona

Especialistas em Engenharia da Produção pela Universidade Federal de Itajubá.

Trabalho escolhido para integrar os anais do Seminário Empreendedorismo, Inovação e Engenharia da Produção: Transformando idéias em novos negócios que aconteceu nos dias 30 de abril a 02 de maio de 2009, em Viçosa/Minas Gerais.

 

O objetivo desse trabalho é analisar os processos produtivos da Unidade de Processamento de Roupa (UPR) da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá. Especificamente pretende-se: i) apresentar o mapeamento do processo da UPR da SCMI, compará-lo ao Manual de Processamento de Roupas de Serviços de Saúde: Prevenção e Controle de Riscos, proposto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária; ii) propor, se possível, melhorias no processo a partir do mapeamento realizado. A justificativa para este trabalho é que as Santas Casas do Brasil, com raras exceções, estão em péssima situação financeira, chegando quase a insolvência. Situação essa que a Santa Casa de Misericórdia de Itajubá também enfrenta.

A  conclusão que se chegou é que, de maneira geral, a UPR da SCMI segue os processos padrão apresentados no Manual da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Entretanto, em outros aspectos a UPR deixa a desejar.

Palavras chave: Mapeamento de processo, Redução de custos, Saúde, Santa Casa

1. Introdução

Nos últimos tempos, o mundo vem experimentando profundas modificações na sistemática de gestão das empresas (SCHLÜTER e BORBA, 1996). Para conseguir sobreviver no mercado, estas necessitam desenvolver diversos atributos de competitividade, sendo o mais importante a evolução do modelo de gestão do negócio. Na área da saúde isso não é diferente. A produtividade vem sendo estudada por vários autores, em todo o mundo, muitas vezes fazendo uso de ferramentas da engenharia de produção, para alcançar as melhorias gerenciais desejadas.

No Brasil, de acordo com Vecina Neto (2007), cerca de 30% da rede hospitalar do país é formada por instituições filantrópicas, notadamente as Santas Casas, que juntas são responsáveis cerca de 40% de todo atendimento ambulatorial e hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar disso, as Santas Casas do Brasil, com raras exceções, estão em péssima situação financeira, chegando quase a insolvência. Na atualidade, os valores pagos pelo SUS são insuficientes para cobrir os custos diretos da maioria dos procedimentos realizados por hospitais em geral. E, para que se obtenha superávit ou, pelo menos, uma
situação de equilíbrio entre receita e despesa, é necessário uma administração competente e rigorosa, tanto no que se refere às despesas quanto às receitas.

A situação que a Santa Casa de Misericórdia de Itajubá enfrenta é a mesma da maioria das Santas Casas do Brasil. Por isso, muitas vezes faltam recursos para implantar novas tecnologias e até mesmo para saldar gastos básicos da entidade. Assim, o objetivo desse trabalho é analisar os processos produtivos da Unidade de Processamento de Roupa (UPR) da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá. Especificamente pretende-se:

i) apresentar o mapeamento do processo da UPR da SCMI, compará-lo ao Manual de Processamento de Roupas de Serviços de Saúde: Prevenção e Controle de Riscos, proposto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária;
ii) propor, se possível, melhorias no processo a partir do mapeamento realizado.

De acordo com trabalho realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), a Unidade de Processamento de Roupas (UPR) da SCMI, consome, mensalmente, cerca de 10% do faturamento bruto da instituição. Desta forma, essa unidade mostrou-se importante objeto de estudo, visto que, com otimizações em seu processo produtivo, é possível reduzir custos, o que refletirá sensivelmente no orçamento da instituição.

Esta afirmação é pertinente, pois este trabalho faz parte dos resultados preliminares de um projeto de avaliação de sistemas de custeios em Santas casas, financiado pela Fundação de Amparo a Pesquisado Estado de Minas Gerais (FAPEMIG). Além disso, o trabalho permitiu estabelecer de uma relação da Universidade com a comunidade, representado pela figura da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá. Assim como os resultados encontrados poderão beneficiar a SCMI e, principalmente, a população menos favorecida, que depende de serviços de saúde com qualidade.

A conclusão que se chegou é que, de maneira geral, a UPR da SCMI segue os processos padrão apresentados no Manual da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Entretanto, em outros aspectos a UPR deixa a desejar. Outro ponto que chama a atenção é a falta de um processo padronizado. Isso facilitaria, e muito, o processo de capacitação e melhoria da qualidade dos processos na UPR.

2. Método de pesquisa

O método científico é a base indispensável para se realizar pesquisas científicas. Ou seja, a pesquisa científica usa o processo formal, pragmático e sistemático do método científico para investigar e descobrir respostas para os problemas da vida real (Gil, 1999; Silva e Menezes, 2005). As pesquisas científicas podem ser classificadas de várias formas, conforme apresentado na Figura 1. Assim, de acordo com as formas de classificação propostas, este estudo poderá ser classificado como: a) pesquisa aplicada quanto à natureza; b) pesquisa normativa e descritiva quanto aos objetivos; c) pesquisa qualitativa quanto à forma de abordar o problema; e d) pesquisa-ação quanto aos procedimentos técnicos.

Coughlan e Coghlan (2002) relacionam entre as características da pesquisa-ação o fato de que:
i) os pesquisadores não são meros observadores, uma vez que interferem no objeto de pesquisa;
ii) a pesquisa-ação envolve duas metas, ou seja, procura resolver um problema e contribuir para a ciência;
iii) ocorre uma cooperação entre pesquisadores e clientes (população), permitindo a geração contínua de novas informações e eventos, que contribuirão para solucionar problemas e atingir os objetivos propostos.

A pesquisa deve seguir, ainda, as seguintes etapas para a utilização da pesquisa-ação como procedimentos:
1) Entendimento do contexto e propósito da pesquisa – Nessa etapa, duas questões podem justificar a pesquisa: Por que esse projeto é necessário/desejável? Quais as razões econômicas, políticas, sociais e técnicas que justificam o projeto?
2) Obtenção e análise de dados – Coughlan e Coghlan (2002) ressaltam que um aspecto importante da pesquisa-ação é que a análise dos dados deve ser realizada por pesquisadores e membros do sistema estudado. No caso do presente estudo, pesquisadores e alunos da disciplina de Custos Industriais e Administração de Custos.
3) Planejamento da ação – Novamente uma etapa a ser realizada em conjunto, onde surgem questões tais como: O que é necessário mudar? Que tipo de mudanças é necessário? Quem proverá o suporte necessário? Que compromisso deve ser
assumido? Como lidar com as resistências?
4) Implementação – Envolve realizar as mudanças desejadas e seguir o plano de ação com a colaboração de todos envolvidos.

5) Avaliação – é uma reflexão sobre os resultados da ação. Deve-se rever todo o processo de forma que o próximo ciclo de planejamento e ação possa ser beneficiado pela experiência anterior. A avaliação é a chave para o aprendizado.

Todas as etapas enumeradas anteriormente são acompanhadas por um processo de monitoramento. Isso é importante, caso um novo ciclo “obtenção de dados-implementação” seja realizado. Assim, será possível corrigir falhas e melhorar os procedimentos em cada uma das etapas.

3. Os serviços de saúde e as Santas Casas

Andrade e Lisboa (2001) consideram que, a partir de 1988, quando a Constituição Federal determinou o acesso aos serviços de saúde como um direito universal e igualitário de todos os cidadãos brasileiros, e foram estabelecidos o papel de cada instância governamental no provimento, financiamento e gerenciamento dos serviços de saúde, o sistema de saúde
brasileiro se concretizou como um sistema nacional.

Apesar disso, Farias e Melarned (2003), estudando a  segmentação dos serviços de saúde, consideram que, sob o ponto de vista dos sistemas de assistência, o mercado brasileiro encontra-se claramente segmentado com dois subsistemas: um público e outro privado. Nessa estrutura o Sistema Único de Saúde (SUS) atua como provedor público de serviços para 3/4
da população brasileira.

As Santas Casas sempre foram e continuam sendo o maior parceiro do Governo na saúde. Pois, essas organizações sempre lutaram e ainda lutam para preservar a saúde do brasileiro. Segundo a Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas (CMB), estima-se que existam cerca de 2.600 Santas Casa no Brasil (consideradas, hoje, como hospitais filantrópicos). Além disso, no ano de 2001, mais de 37% das internações no âmbito do SUS ocorreram em hospitais filantrópicos e sem fins lucrativos, correspondendo ao valor de quase dois bilhões de reais.

Apesar disso, as Santas Casas do Brasil, com raras exceções, estão em péssima situação financeira, chegando quase a insolvência. Em média, 60% assistência prestada são aos pacientes do SUS, o que representa cerca de 30% da receita bruta das instituições. Apesar de receberem doações e subvenções por parte de particulares, estados e municípios, estas
representam, em média, menos de 1,6% da receita total. O que agrava mais a situação dessas organizações são os atrasos de pagamentos dos gestores nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal); além de não haver o repasse do excedente do teto de internações e procedimentos efetuados (CRM-SP, 2005).

Carneiro (1986) entre outros autores concordam que em algum lugar da sua história, as Santas Casas perderam sua característica de obra de caridade e, portanto, seus benefícios e privilégios. Dessa forma, a questão financeira, que sempre foi delicada, tornou-se premente. Rehem (2007) vai mais além. Na atualidade, os valores pagos pelo SUS são insuficientes para
cobrir os custos diretos da maioria dos procedimentos realizados por hospitais em geral. E, para que se obtenha superávit ou, pelo menos, uma situação de equilíbrio entre receita e despesa, é necessária uma administração competente e rigorosa, tanto no que se refere às despesas quanto às receitas.

Por fim, Vecina Neto (2007), propõe algumas alternativas primordiais para a recuperação financeira dessas instituições comunitárias, sem finalidades lucrativas. Dentre elas a que mais chama a atenção é a proposta de modernização da gestão. Ou seja, agir baseado em informações e sempre realizar seus processos da melhor maneira conhecida.

4. Mapeamento de Processos

De acordo com Harrington (1993, p.10) “não existe um produto ou serviço sem que haja um processo”. E da mesma maneira, “não existe um processo sem um produto ou serviço”. Ou seja, todo trabalho importante realizado nas empresas faz parte de algum processo (Graham e LeBaron 1994).

Como se pode perceber, os processos são as fontes de competências específicas da empresa que fazem a diferença em termos de concorrência, além da influência que podem ter a estratégia, os produtos, a estrutura e a indústria (Keen,1997). Entretanto, de modo geral, percebe-se que as empresas possuem pouco conhecimento sobre a definição de Gerenciamento de Processos, e ainda não compreenderam claramente a maneira que o mesmo pode ser realizado e acompanhado, com o objetivo de obter resultados palpáveis.

Hammer (1998) afirma que as empresas ignoram seus processos, mas que elas têm muito a ganhar ao se dedicarem a conhecê-los melhor. E aperfeiçoar um processo não implica, necessariamente, em aumento de trabalho, mas sim na eliminação de atividades que não tenham um sentido em si, na remoção de obstáculos que impedem o bom desempenho, na
realização do trabalho de maneira mais fácil e eficiente, sem cometer erros e o entendimento do processo e suas saídas (HARRINGTON, 1993).

Porém, não adianta mudar a estratégia e continuar conduzindo as atividades da mesma forma: é preciso redesenhar os processos-chave da organização, pois são eles que impulsionam a vantagem competitiva e permitem que os objetivos definidos pela estratégia sejam atingidos. Nesse sentido, Barnes (1982) afirma que o gráfico de fluxo de processo, ou fluxograma, é uma técnica para se registrar um processo de maneira compacta, a fim de tornar possível a compreensão e posterior melhoria de um processo. Hunt (1996) complementa que o mapeamento de processos pode ser considerado como uma ferramenta gerencial analítica e de comunicação que têm a intenção de ajudar a melhorar os processos existentes ou de implantar uma nova estrutura voltada para processos.

Mapear um processo, ajuda a identificar as fontes do desperdício, fornecendo uma linguagem comum para tratar dos processos de manufatura e serviços, tornando as decisões sobre o fluxo visíveis, de modo em que se possa discutí-las, agregando conceitos e técnicas enxutas, que ajudam a evitar a implementação de algumas técnicas isoladamente, formando a
base para um plano de implementação e mostrando a relação entre o fluxo de informação e o fluxo de material (LEAL, 2003).

5. Análises e Resultados

5.1. Objeto de estudo

Esse estudo foi realizado na Unidade de Processamento de Roupas (UPR) da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá (SCMI). A unidade de processamento da roupa de serviços de saúde é considerada um setor de apoio que tem como finalidade coletar, pesar, separar, processar, confeccionar, reparar, e distribuir roupas em condições de uso, higiene, quantidade, qualidade e conservação a todas as unidades do serviço de saúde (GODOY et al. 2004).

A Unidade de Processamento de Roupas (UPR) da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá presta serviços de lavanderia e rouparia, sendo responsável pelo processamento de toda a roupa utilizada no hospital. Considerando que esse é um dos serviços mais importantes de um hospital, uma vez que é fator de redução da infecção hospitalar e gerador de custos (na
maioria das vezes elevados), o objetivo desse trabalho, como mencionado, é: analisar os processos produtivos da UPR da SCMI. Especificamente pretende-se:
i) apresentar o mapeamento do processo da UPR da SCMI, compará-lo ao Manual de Processamento de Roupas de Serviços de Saúde: Prevenção e Controle de Riscos, proposto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária;
ii) propor, se possível, melhorias no processo a partir do mapa desenvolvido.

A UPR da SCMI conta com um quadro de nove colaboradores, que são distribuídos em dois turnos distintos. As máquinas e os equipamentos utilizados na UPR da SCMI são antigos e muitos estão totalmente depreciados. Por não existir controle dos bens patrimoniais e nem do processo de manutenção desses ativos, é impossível determinar ao certo: a idade das
máquinas e dos equipamentos; qual a vida útil que resta; qual o custo de manutenção; qual o consumo de energia elétrica e de água dentre outras informações.

5.2. Contexto e Propósito da Pesquisa

A pesquisa realizada na Unidade de Processamento de Roupas (UPR) da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá (SCMI) faz parte de um projeto mais abrangente, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG). Seu objetivo é realizar um mapeamento de todas as unidades prestadoras de serviço da SCMI, com as suas respectivas
estruturas de custo, gerando informações para a tomada de decisões.

A UPR foi a primeira unidade a ser escolhida por possuir significativa importância para os serviços de saúde que são prestados pela SCMI. Além disso, essa unidade consome, mensalmente, cerca de 10% do faturamento bruto da Santa Casa. Assim, possíveis melhorias no processo e conseqüente redução de custo, poderiam contribuir sensivelmente com o orçamento de outras unidades da instituição.

5.3. Obtenção e Análise dos dados: Mapeamento dos processos da UPR

Para conseguir os dados (que serão apresentados na seqüência), foram feitas várias visitas à UPR da SCMI. Nessas visitas, os principais instrumentos usados para coletar os dados e criar os mapas dos processos foram: a entrevista não estruturada; e a observação direta. Como proposto pela ANVISA (2007) e normatizado pela RDC/Anvisa nº. 50/2002, para cada atividade da UPR deve existir um ambiente correspondente para a sua execução.

Esses ambientes encontram-se principalmente em duas áreas: “suja” e “limpa”. A UPR da SCMI segue esse procedimento e, em cada área, atividades específicas são realizadas como apresentado na Figura 2. Na área suja da unidade, a roupa é pesada, separada e classificada antes de iniciar o processo de lavagem. Na área limpa, onde ocorre a maioria das atividades, a roupa lavada é centrifugada, seca, passada, dobrada, armazenada e redistribuída. Quando necessário, a roupa passa por reparos ou é reaproveitada e ou descartada.

O primeiro fluxograma, apresentado na Figura 3, agrupa as atividades de recebimento, pesagem, separação e classificação da roupa suja. A primeira atividade da UPR começa nos quartos. Os enfermeiros, encarregados de recolher as roupas sujas que são trocadas por limpas, as colocam em sacolas plásticas, e as despacham aos expurgos de cada setor (item 1
da Figura 3). Já nos expurgos, um funcionário da lavanderia, responsável pela coleta, visita cada setor, em horários pré-determinados e coleta as roupas sujas (itens 2, 3 e 4 da Figura 3).

A pesagem da roupa suja, de cada setor, é realizada no momento do recebimento na unidade de processamento e os pesos são registrados por setor, o que possibilita o fornecimento de dados para o controle de custos (itens 5 e 6 da Figura 3). Entretanto, a forma com que essa pesagem é feita dificulta o dimensionamento da carga do processo de lavagem,
pois as lavadoras têm capacidade limitada.

Na UPR da SCMI o parâmetro usado para classificar e separar as roupas baseia-se apenas no grau de sujidade e o tipo de peça. Com isso, as roupas sujas possuem três classificações na UPR da SCMI: roupa pesada, roupa leve e cobertor (atividades representadas no item 7 da Figura 3). São consideradas roupas pesadas toda e qualquer peça que apresente sujidade aparente de sangue, fluidos, urina e fezes. As roupas leves são aquelas que não apresentam as características das roupas pesadas (ou seja, não apresenta este tipo de sujidade aparente) e cobertores são as peças usadas para cobrir os pacientes nos leitos.

A inspeção das roupas sujas ocorre simultaneamente com a classificação (item 7 da Figura 3). Nessa atividade, as peças de roupa suja são cuidadosamente abertas, puxando-as pelas pontas sem apertar, para a verificação e retirada de possíveis objetos estranhos, como instrumentais, artigos perfuro-cortantes, tecidos humanos, entre outros, provenientes dos setores e que, acidentalmente, foram misturados à roupa suja. Localizar e retirar objetos estranhos que possam estar presentes junto a roupa aumenta a exposição dos funcionários a injúrias e a infecções, entretanto se essa atividade não for realizada esses objetos podem danificar máquinas, equipamentos e tecidos.

O segundo fluxograma, apresentado na Figura 4, apresenta a macro atividade de lavagem da roupa suja. Como pode ser constatado na Figura 4, a atividade de lavagem da roupa suja na UPR da SCMI pode ser desmembrada em outras atividades menores, mas que, em essência, constituem a mesma atividade (lavagem). Por isso, essa etapa do processamento foi chamada de macro atividade de lavagem.
 

O processo de lavagem visa eliminar a sujeira e reduzir o nível bacteriológico. A roupa é desinfetada durante o processo de lavagem, tornando-se livre de patógenos vegetativos, mas não se torna estéril (BARRIER, 1994). A lavagem consiste numa seqüência de operações ordenadas, que leva em consideração o tipo e a dosagem dos produtos químicos, a ação mecânica produzida pelo batimento e esfregação das roupas nas lavadoras, a temperatura e o tempo de contato entre essas variáveis. O perfeito balanceamento desses fatores é que define o resultado final do processo de lavagem (TORRES e LISBOA 1999;
BARRIER, 1994).

Entretanto, como pode ser visto nos itens 7, 11 e 14 apresentados na Figura 4, os colaboradores não precisam se preocupar com a dosagem dos produtos químicos, a ação mecânica produzida pelo batimento e esfregação das roupas nas lavadoras, e nem o tempo de contato entre essas variáveis. As máquinas de lavar já são equipadas com programas de limpeza de cada tipo de roupa (cobertores, roupas pesadas e leves).

Apesar do processo de lavagem da roupa ter sofrido algumas modificações ao longo do tempo pelo surgimento de novos produtos químicos e dos avanços tecnológicos que propiciaram lavadoras mais eficientes e com recursos cada vez mais informatizados, infelizmente na UPR da SCMI essa não é a realidade. Apesar de usar produtos químicos de alta qualidade, a condição física das lavadoras deixa a desejar o que, a curto e médio prazo pode comprometer a qualidade da roupa lavada. Após a atividade lavagem das roupas, elas passam pelos processos de centrifugação, secagem e ou calandragem e ou prensagem, que são efetuados na área limpa da unidade.

A primeira atividade executada da área limpa da UPR da SCMI é apresentada na Figura 5. A centrifugação tem o objetivo de remover o excesso de água presente na roupa. Assim como ocorre com as lavadoras, a condição física das centrífugas não inspira confiança no processo. Apesar das máquinas estarem funcionando, aparentemente, de forma normal, a condição física pode comprometer a atividade além de gerar gastos elevados com manutenção corretiva. Item que, aparentemente não é controlado pela SCMI.
 

A próxima atividade da área limpa executada na UPR da SCMI é a secagem, que é apresentada na Figura 6. Nesta atividade a roupa passa por um novo processo de separação e três tipos de roupas são identificados: cobertores, roupas miúdas e roupas em tergal. As roupas miúdas referem-se a algumas peças da pediatria e meias do centro cirúrgico. No caso das secadoras, aparentemente apresentam-se em melhores condições físicas do que as máquinas anteriores. Entretanto, isso não quer dizer que estas são menos problemáticas do que as anteriores, haja visto que não é feito nenhum tipo de controle (nem de manutenção e nem de consumo de energia).

Depois de secas, as roupas são encaminhadas à calandra. A calandragem é a operação que seca e passa ao mesmo tempo as peças de roupa lisa como lençóis, colchas leves, uniformes, roupas de linhas retas, sem botões ou elástico, à temperatura de 120ºC a 180ºC. A rotina da atividade de calandragem pode ser observada na Figura 7.

Como pode ser observado na Figura 7, as roupas passam por um processo de inspeção para verificar se elas precisam de pequenos reparos ou se devem ser descartadas. Nesse ponto, algumas melhorias poderiam ser feitas porque essa análise ocorre apenas após as peças serem passadas. Se essa inspeção fosse feita antes, poder-se-ia economizar com algumas atividades.

Algo que chama a atenção é que, mesmo não tendo roupas para serem passadas ou caso o colaborador não esteja na operação da calandra, essa máquina fica ligada durante todo o expediente da lavanderia. Por se tratar de uma máquina que usa resistência elétrica, isso pode aumentar, substancialmente, o consumo de energia da UPR da SCMI. Na UPR da SCMI não são executadas atividades de prensagem e embalagem da roupa como proposto por ANVISA (2007). As roupas são encaminhadas a rouparia e nesta, as peças limpas são separadas por setor e ficam aguardando a redistribuição. Como mostrado na Figura
8, as roupas limpas ficam armazenadas sem nenhuma proteção contra novas contaminações.

Essa forma de armazenamento das roupas não segue as orientações propostas por ANVISA (2007). De acordo com ANVISA (2007), o local onde as roupas serão armazenadas deve ser limpo, livre de umidade e exclusivo para esse fim. No final do turno da tarde, os funcionários fazem um levantamento para analisar se o número de roupas limpas é suficiente para suprir a demando do hospital durante a noite. Caso seja insuficiente alguns funcionários necessitam fazer hora extra. Estas horas extras podiam ser eliminadas caso os outros processos descritos fossem otimizados.

5.4. Planejamento da ação: Sugestão de melhoria a partir do Mapeamento dos processos

A unidade de processamento de roupas deve possuir normas e rotinas padronizadas e atualizadas de todas as atividades desenvolvidas, as quais devem estar registradas e acessíveis aos profissionais envolvidos. De acordo com Lisboa (1998), os procedimentos praticados na unidade de processamento de roupas são uniformes e representados sob a forma de regimento, que é “um instrumento administrativo de grande valia, contendo objetivos e obrigações do serviço, que devem ser divulgados a todos os funcionários”.

Como visto, a UPR da SCMI é uma fonte de custos muito relevante. O principal gargalo operacional percebido pela pesquisa ocorre no momento da classificação, separação e inspeção das roupas o que consome muito tempo que poderia ser dedicado a outras atividades. A sugestão dos pesquisadores para solucionar este problema é que este processo ocorra durante o recolhimento das roupas pelos enfermeiros responsáveis em cada setor, pois, enquanto estes retiram manualmente as roupas dos quartos, peça a peça, fica visível se esta pode ser classificada em pesada, leve ou cobertor. Além de ser fácil checar se há algum objeto médico e ou perfuro-cortante aderido à peça, que poderia danificar as máquinas da lavanderia ou ferir um funcionário da UPR.

A Figura 9 apresenta o fluxograma com as propostas de melhoria para a Área Suja. Para implementar essa melhoria, é necessário treinar e capacitar os enfermeiros. Além disso, inicialmente, os funcionários da UPR deverão acompanhar os enfermeiros, para garantir a qualidade deste processo. Outra ação que pode contribuir com a melhoria da seleção de roupas seria a adoção de sacos plásticos de capacidades adequadas e cores diferentes para cada tipo e quantidade de roupa (cobertores, roupas pesadas e leves).

Por fim, com base na observação das atividades, sugere-se padronizar os procedimentos operacionais e realizar treinamentos periódicos para melhor utilização dos recursos disponíveis. Entretanto, nenhum planejamento estratégico e nem operacional por parte da SCMI foi criado para avaliar e implementar as propostas feitas pela equipe de pesquisadores. Sendo assim, não foi possível avaliar se as mudanças contribuem ou não com a melhoria dos processos da UPR da SCMI.
 

6. Considerações Finais

O objetivo desse trabalho era analisar os processos produtivos da Unidade de Processamento de Roupas da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá. Especificamente pretendia-se: i) apresentar o mapeamento do processo da UPR da SCMI, compará-lo ao Manual de Processamento de Roupas de Serviços de Saúde: Prevenção e Controle de Riscos, proposto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária; ii) propor, se possível, melhorias no processo a partir do mapeamento realizado.

Pelo o que se pôde perceber, de maneira geral, a UPR da SCMI segue os processos padrão apresentados no Manual da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Entretanto, em outros aspectos a UPR deixa a desejar. Como é o caso, por exemplo, do setor de armazenagem das roupas limpas (rouparia). Outro ponto que chama a atenção é a falta de um processo padronizado. Isso facilitaria, e muito, o processo de capacitação e melhoria da qualidade dos processos na UPR.

Vale destacar que, apesar dos funcionários da UPR terem se envolvido nessa pesquisa, o envolvimento do setor administrativo foi muito superficial. Haja visto que em nenhum momento ele se propôs a mobilizar uma equipe específica para julgar se as propostas de melhoria seriam condizentes com a realidade da UPR.

Pelo apresentado, esse trabalho atingiu seu objetivo ao avaliar por completo o processo de lavagem de roupas sujas da Unidade de Processamento de Roupas da Santa Casa de Misericórdia de Itajubá.

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