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:: Responsabilidade Social

A dimensão técnica dos projetos sociais nos currículos acadêmicos

Patrícia Zingoni Machado Morais

Psicóloga, Pós Graduada em Gestão de Projetos pelo IETEC.

Desde o final do regime militar e da promulgação da Constituição de 1988, verifica-se uma grande ampliação da ação social autônoma na sociedade civil brasileira. Pelo menos dois fatores contribuíram para isso: o primeiro é o fato de que os avanços, em termos de democratização política, não estão sendo acompanhados da redução da pobreza e das desigualdades sociais; muito pelo contrário, as oportunidades e as necessidades de ações sociais só têm crescido; o segundo fator é a crescente transferência de responsabilidades de parte do governo federal para as organizações de sociedade civil no tocante ao enfrentamento da problemática social.
Uma parte relevante desse novo protagonismo tem sido materializado através de projetos sociais. Com isso, cresce a cada dia, o número de organizações sociais que realizam sua ação e obtêm recurso através de projetos. Mesmo a ação social no âmbito governamental vem, cada vez mais, sendo projetada e gerenciada através de projetos e programas. Cresce também o número de instituições que financiam projetos, oferecem capacitação e prestam assessoria na área. Por outro lado, o próprio nível de exigência geral quanto a qualidade da ação social é, hoje, maior do que nunca. É notável também o interesse recente da opinião pública e da mídia sobre programas e projetos sociais. Por isso tudo, torna-se fundamental, para atividades sociais, intervenção organizada com melhores possibilidades de atingir seus objetivos.

Apesar dos inúmeros avanços no âmbito da elaboração e gestão de projetos nos últimos anos, há ainda muitos desafios no horizonte. Um deles é superar a visão ainda muito difundida de que projeto é aquele documento formal que serve fundamentalmente para obter financiamento. Nessa visão, o conteúdo de tal documento não tem necessariamente uma relação direta com a forma como a ação será pensada e desenvolvida. Outro desafio a ser superado é aquele que considera que as metodologias e o contexto lógico do projeto são resultado do racionalismo ocidental e de uma interpretação da realidade feita a partir de uma lógica causal, que acabam privilegiando-se abordagens mecanicistas freqüentemente rígidas e limitadas

Nas últimas quatro décadas, houve amplo desenvolvimento de metodologias que subsidiam o planejamento, a gestão e a avaliação de projetos de investimento empresarial, que alcançou inclusive, complexos modelos matemáticos. Já no campo dos projetos sociais, os reflexos do conhecimento sistematizado nessa área ainda são tênues. Isso acarreta a proposição de ações empreendidas, na maior parte das vezes e apesar das melhores intenções, sem uma análise criteriosa das condições para a consecução mais eficaz dos objetivos almejados e sem uma preocupação com a utilização mais eficiente dos recursos destinados ao projeto. Além disso, por transposição das técnicas aplicadas aos projetos de investimento, existe um viés muito economicista em muitas das metodologias utilizadas para a condução dos projetos na área social.

Numa época em que os recursos destinados a área social são escassos e as demandas são, em contrapartida, elevadas, a exigência de uma gestão eficaz, eficiente e efetiva dos projetos e programas sociais torna-se categórica. Para isso, no entanto, é necessário o desenvolvimento de uma cultura voltada para a elaboração e o monitoramento, que compreenda tais processos não apenas como instrumentos de definição de metas e acompanhamento de cronograma e fluxo de caixa, com vistas em captação de recursos e posterior prestação de contas aos financiadores; mas sim como excelentes ferramentas de aperfeiçoamento no processo de tomada de decisão da gestão dos projetos, em especial na área social. Neste sentido atenção entre as agencias financiadoras, tem se voltado para a efetividade das ações, e não apenas para a eficiência e a eficácia no cumprimento das metas. Importa saber se, além de uma utilização eficiente dos recursos, as ações contribuíram para uma mudança positiva na situação-problema enfocada pelo projeto.

A análise dos esforços até então empreendidos nas universidades, demonstrou que as poucas experiências existentes apresentam abordagens "mecanicistas" ou "cartesianas" que levam os alunos a ter desconforto e resistências, porque os programas de ensino podem ser excessivamente teóricos, colocando os alunos muito distantes da prática e resultando em experiências pouco concretas. Por outro lado, um ensino que desconsidere a racionalidade no planejamento e no uso eficiente dos recursos, sobrevalorizando o lado social do projeto, tendo sua lógica construída dentro de "teorias sociológicas" , tampouco consegue preparar gerentes qualificados para fazer uso eficiente dos recursos e estabelecer uma direcionalidade clara dos projetos sociais.

Quanto a produção literária, observamos que as publicações sobre gerência de projetos é relativamente extensa, mas parece que a maioria dos textos foi escrita por engenheiros, administradores e economistas preocupados com a utilização de instrumentos que aumentem a eficiência no uso dos insumos materiais e recursos financeiros colocados à disposição do gerente do projeto. Partindo de exemplos ou casos concretos de planejamento e implementação de projetos de engenharia (barragens, portos, etc.), exploram estas situações para ilustrar os conceitos e a aplicação de técnicas de planejamento, de projeção, de análise de viabilidade econômica, de análise de custo-benefício, de programação de atividades, de avaliação de impacto econômico, etc. Este tipo de abordagem, que pode ter significado para outros economistas, engenheiros ou administradores, se traduz em conteúdos quase inatingíveis ou incompreensíveis para os profissionais freqüentemente encontrados na condução de projetos sociais: educadores, assistentes sociais, médicos, enfermeiros, agrônomos, etc.

O técnico ou profissional afeito às questões sociais frustra-se com este tipo de conteúdo excessivamente mecanicista e quantitativo porque rapidamente percebe a inadequação daquela abordagem aos problemas com os quais tem que lidar na realidade social.

Apesar da importância dos conceitos presentes nesta abordagem serem de grande utilidade para o raciocínio de quem planeja e gerência a implantação de um projeto social, a sua aplicação, com instrumentos de mensuração quantitativa para as ações de desenvolvimento social torna, a partir da primeira dificuldade encontrada pelo aluno, em elemento de desmotivação para o aprendizado. Ademais, os exemplos utilizados nos livros didáticos para ilustrar o uso destes conceitos e técnicas nem sempre são didáticos ou passíveis de ser transladados a uma situação de um projeto social. O cálculo de custo-benefício em projetos de saúde, por exemplo, é extremamente complexo, exige premissas de baixa aceitação entre os profissionais da área social e sua utilização é freqüentemente cercada de ressalvas acerca da sua real utilidade e do seu próprio custo-benefício.

Quando se busca na literatura de gerência os textos que ressaltam a expressão "social" no seu título, também se corre o risco de frustrar-se severamente ao se deparar com uma literatura geralmente desenvolvida por cientistas sociais ou políticos, eivada de jargão sociológico e que também passa a ser de pouca utilidade para quem tem que tomar decisões no dia-a-dia do projeto. A análise de variáveis políticas, sociais e culturais do contexto do projeto, as explicações sociológicas da causalidade dos problemas enfrentados, bem como discussões infindáveis sobre a distribuição do poder adquirem uma posição de absoluto destaque neste tipo de abordagem. Numa estrutura didática que parece expressar uma atitude de explícita negação dos métodos quantitativos e de uma abordagem racionalista, alguns destes textos evitam discutir métodos de programação de atividades, de avaliação quantitativa, etc. Em que pese o enriquecimento que o leitor obterá sobre importantes conceitos próprios da Sociologia -- os quais são absolutamente importantes para aqueles que, trabalhando com uma temática social, não tenham recebido ensinamentos nesta área de conhecimento durante a sua graduação -- estes textos são de pouca utilidade prática para quem estiver buscando um ferramental para planejar, gerenciar e avaliar projetos e/ou programas na área social.

Algumas agências de cooperação e autores procuraram desenvolver e divulgar metodologia de planejamento e gerência de projetos que fossem instrumentos úteis e facilmente aplicáveis para projetos sociais. Merecem destaque dois exemplos que, em um certo sentido se aproximam. De um lado a GTZ, agência de cooperação internacional do governo alemão, desenvolveu o método ZOPP (das iniciais de "Zielorienterte Projektplanung" em alemão, que significa "planificação de projetos orientada para objetivos"); quase ao mesmo tempo a USAID desenvolveu um instrumento semelhante por nome "Logical Framework" (Estrutura Lógica). Ambos oferecem conceitos e uma abordagem prática úteis para a formulação de projetos sociais, contendo elementos e instrumental que também contribuem para a gerência da implementação e da avaliação. Tanto o ZOPP como o Logical Framework se auto-classificam como instrumentos de gerência de projetos

Em nosso meio, a oferta de cursos universitários de extensão e aprimoramento sobre gerência de projetos é, de forma geral, escassa, quando de todo disponível. A grande maioria das universidades brasileiras parece não ter se preocupado com esta área.

Alguns cursos em moldes de seminários ou oficinas de trabalho -- são oferecidos para clientelas específicas por encomenda de um patrocinador que esteja implantando um programa ou projeto; nestes casos, como é de se esperar, o currículo é limitado e específico para as necessidades do cliente.

Os conteúdos desenvolvidos por instituições que visam o aperfeiçoamento da área empresarial põem ênfase sobre a otimização dos insumos colocados à disposição do projeto, no sentido de alcançar os objetivos propostos pelo plano. A rigor, estes começam pela fase de planejamento e avaliação ex-ante da viabilidade e eficácia do modelo proposto. Seguem pela discussão da programação de atividades, gerência de recursos (humanos, materiais e financeiros), de qualidade e risco, dando uma visão geral do melhor aproveitamento das atividades e insumos. com ênfase na avaliação da eficácia do modelo de intervenção proposto e na efetividade e eficiência do projeto. É importante destacar que um dos pontos fortes destes conteúdos é a delimitação dos conceitos de eficácia, efetividade e eficiência. Para os projetos da área social a ênfase sobre estes conceitos tem enorme vantagem porque leva profissionais e técnicos a habituar-se com dimensões do projeto que são habitualmente negligenciadas, quando não rejeitadas.

Sem dúvida, estes currículos tem o mérito de introduzir conceitos fundamentais relativos à gerência e otimização de insumos, os quais fazem parte do vocabulário dos administradores e gerentes de projetos de produção e que, com freqüência são vistos com ressalvas por aqueles que trabalham com projetos sociais.

A experiência mostra que, uma vez ambientados com os instrumentos adequados de gerência, os mesmos que faziam oposição e críticas ácidas à abordagem dos administradores, passam a adotar, defender e divulgar os princípios e técnicas da administração racional.

O importante neste campo é desfazer uma pretensa dicotomia entre os "racionalistas" e os "sociológos", criando currículos que permitam uma forma abrangente de entender o fenômeno do projeto como um momento transformador do status quo, e que contemplem tanto os conceitos de eficiência, racionalidade e ordenamento na execução das ações, como o trabalho de motivação, identificação de líderes e desenvolvimento institucional, entre outros.

BIBLIOGRAFIA

DOMINGOS Armani. Como elaborar projetos?: guia prático para elaboração e gestão de projetos sociais. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2002. Coleção Amencar.

KIZIL Rosana. Elaboração de projetos e propostas para organizações da sociedade civil. Instituto Fontes. São Paulo. Global, 2001. – Coleção Gestão e Sustentabilidade

TENÓRIO, F. G. Administração de projetos comunitários; uma abordagem prática. 2 ed. São Paulo: Loyola, 2000.

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