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:: Inovação e Criatividade

Inovação na Crise

Valor Econômico - 14/12/2009

Empresas ampliam gastos com pesquisa e desenvolvimento em 2008, mas reduzem o ritmo de expansão dos investimentos

A crise econômica não reduziu os gastos das empresas mais inovadoras em pesquisa e desenvolvimento no ano de 2008, mas alterou o perfil dos investimentos. As empresas se tornaram mais avessas ao risco, mais conservadoras e mais propensas a trabalhar com o desenvolvimento que com a pesquisa, indica o estudo The Global Innovation 1000 ― Profits Down, Spending Steady (As 1.000 da Inovação Global – Lucros em Queda, Gastos Constantes), de Barry Laruzelski e Kevin Dehoff, da consultoria internacional Booz & Company. Segundo o documento, as 1.000 empresas pesquisadas ampliaram em 5,7% seus gastos em P&D em 2008 em comparação a 2007, investindo um total de US$ 532 bilhões nessas atividades, e tiveram um acréscimo de 6,5% nas vendas mundiais. Esse índice de crescimento em P&D é menor que a taxa de ampliação de gastos registrada nos cinco anos anteriores, que foi de 7,1% na média, ou seja, as empresas ampliaram os investimentos, mas em um ritmo mais lento.

Especialistas brasileiros não se surpreenderam com o resultado. Para eles, o comportamento das empresas durante a crise era esperado. "Há uma desaceleração em gasto em P&D e isso é reflexo da crise do corte de investimento. O gasto em P&D cai menos que o investimento, e tende a ser mais seletivo quanto aos projetos, o que é coerente", afirma Carlos Américo Pacheco, professor do Instituto de Economia da Unicamp. "Não há nada no cenário que indique uma razão forte para as empresas cortarem P&D, exceto naqueles casos que envolvem a questão de sobrevivência da empresa. E, mesmo assim, haverá casos em que as empresas tentam levantar a receita, diversificando para outros negócios em que pode transferir sua expertise, ao invés de reduzir os gastos com P&D", completa Sérgio Queiroz, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências (DPCT-IGE) da Unicamp.

A intensidade do esforço de P&D ― vendas sobre o volume investido nessas atividades ― das empresas pesquisadas foi de 3,6% e em 2008 se manteve a mesma em relação ao ano anterior. A Booz estima que o gasto total das empresas do estudo representa 81% do gasto corporativo global em P&D, calculado em aproximadamente US$ 660 bilhões ― um pouco mais de 50% do total investido em P&D no mundo, que seria de US$ 1,05 trilhão, incluídos aí os gastos dos governos. Entre os setores, computação e eletrônica ficaram na liderança, com investimentos de US$ 149 bilhões, seguidas das empresas das áreas da saúde, com US$ 120 bilhões, e automobilística ― que registrou um aumento nos investimentos de apenas 0,6% ―, com US$ 86 bilhões. O setor aeroespacial e de defesa foi o único a registrar menor gasto em P&D em 2008 na comparação com 2007, com queda de 2,3%, tendo investido US$ 22 bilhões no ano passado.

No caso da indústria automobilística, nove das dez indústrias líderes cortaram os investimentos em P&D se comparado a 2007, mas os cortes não se refletiram no total do setor. A Toyota, que ainda mantém a liderança mundial, sofreu a primeira grande perda de sua história com a crise econômica, e reduziu seus gastos em P&D em 6%. O contrário ocorreu no setor de software e Internet: oito das dez empresas mais inovadoras do segmento ampliaram seus gastos. A indústria de eletrônica e computação aumentou em 4% seus investimentos em P&D.

A Booz analisou, de forma destacada, as 20 empresas que mais investiram em P&D. Entre esse grupo, o aumento no investimento entre 2007 e 2008 foi de apenas 3,2%, comparado a 10,7% entre 2006 e 2007. As cinco líderes são Toyota (US$ 8,9 bilhões investidos), Nokia (US$ 8,7 bilhões), Roche (US$ 8,1 bilhões), Microsoft (US$ 8,1 bilhões), e General Motors (US$ 8 bilhões). Somados, os investimentos das 20 primeiras empresas no ranking em gasto em P&D em 2008 foram de US$ 135,8 bilhões. Nenhuma empresa brasileira aparece entre as 20 maiores investidoras.

Algumas tendências

O estudo da Booz também detectou algumas grandes tendências que se originaram ou se aprofundaram com a crise, a partir de entrevistas com 290 gestores de P&D das firmas pesquisadas. As empresas estão desenvolvendo menos pesquisa pura e aplicada e concentrando seus recursos em desenvolvimento e engenharia ― 44% disseram gastar menos de 20% do seu orçamento de P&D em pesquisa básica. O indicador só confirma o que os especialistas dizem ser a realidade das empresas. "A proporção entre pesquisa e desenvolvimento é algo muito estável. No agregado das indústrias, podemos considerar 20% para pesquisa e 80% para desenvolvimento. Se mudar essa proporção, não será uma alteração grande", afirma Queiroz.

Mas se as empresas alegam que vão fazer mais desenvolvimento, quem fará a pesquisa serão parceiros, conforme se nota no cada vez mais praticado modelo de gestão de inovação aberta? "Toda a discussão sobre open innovation é também uma forma de as empresas se concentrarem mais em desenvolvimento e criarem links e estruturas de gestão dessa parte da pesquisa não tão aplicada, a ser realizada fora", responde Pacheco. Ele recorda que a realização de pesquisa básica é algo muito concentrado em alguns poucos setores. Em tecnologia da informação, por exemplo, é feita quase exclusivamente por quem produz equipamento para fábricas de semicondutores. Também é bastante concentrada em fármacos e em novos materiais. "A crise pode levar as empresas a acelerar sua caminhada para esse modo de gestão da inovação. A open innovation muda, muito, a maneira como as empresas fazem P&D, mas o impacto disso veremos mais para frente", acrescenta Queiroz.

Pacheco diz que as atividades de pesquisa nas empresas vão continuar. "Se uma empresa não tiver um mínimo de competência em pesquisa, não consegue nem decodificar a pesquisa que está sendo feita na universidade", justifica. O modelo de open innovation justamente promove a ideia de que a pesquisa seja feita por um conjunto plural de atores ― não só universidade, mas institutos e empresas menores ―, dada a impossibilidade de se ter toda a estrutura de conhecimento e também como estratégia para diminuir o risco. "Uma parte grande do esforço de inovação, em alguns segmentos, é feito por pequenas e médias empresas e está acoplado aos movimentos de fusões, aquisições e compras de ativos tecnológicos. Uma coisa importante da crise que não aparece nos indicadores de esforço em P&D é esse efeito: pode ser que a crise acelere a compra de ativos, de pequenas e médias empresas com esforços de inovação importantes", ressalta ele.

Foco em produtos novos com potencial de grande crescimento

Além dessa tendência de concentração em atividades de desenvolvimento, 40% das empresas disseram para a Booz ser encorajadas a acelerar seus esforços para tornar os processos de inovação mais eficientes. Praticamente metade dos gestores disse ainda que suas companhias estão mais conservadoras. Mais de 40% deles afirmaram que estão aprimorando sua capacidade de análise de projetos, de forma a identificar mais rapidamente os projetos pouco promissores e abandoná-los cedo, evitando gastos desnecessários.

Mais de 40% das empresas contaram que estão focando os investimentos em novos produtos que tenham potencial de crescer rapidamente. "A crise força a empresa a examinar, no seu portfólio de projetos, aqueles que podem ser colocados em prática mais rápido, para acelerar a chegada de produtos novos como mecanismo de saída da crise", justifica Pacheco. "A maioria dos analistas entende que o comportamento normal das empresas é se tornar mais avessa ao risco e, portanto, retrair o gasto, mudar a maneira de avaliar e gerir os projetos, e reorientá-los para projetos mais promissores ou menos arriscados", resume Queiroz.

"São várias situações que podem impor esse comportamento mais retraído, e uma delas é a própria questão da sobrevivência. Algumas empresas se defrontam com uma situação particularmente preocupante porque têm gasto elevado em P&D e tiveram uma queda muito forte nas receitas", completa Queiroz. Ele cita como exemplo o caso da empresa de semicondutores Applied Materials, citada no relatório da Booz. A firma precisa manter suas atividades de P&D para continuar competindo no mercado, mas deve tomar providências para que a queda da receita não a leve à falência. A solução encontrada, segundo o documento, foi diversificar, buscando outras fontes de receita. A empresa utilizou sua expertise em silício e aplicou-a em tecnologias com exigências semelhantes ― no caso, em painéis solares.

O grande problema das empresas, no geral, é administrar um investimento que dará retorno no futuro, caso das atividades de P&D, e cuidar do curto prazo para poderem chegar ao longo prazo. Em situações de crise, esse balanço é mais complicado de ser administrado. "Toda empresa se defronta com esse dilema de como combinar o que em inglês se chama exploration e exploitation", explica Queiroz. Exploration seria associado a investigação, pesquisas radicais, produção de novos conhecimentos e competências. Exploitation está associada a inovação incremental e à manutenção e ao uso de conhecimentos já adquiridos pela empresa.

Crise durou pouco, por isso cortes não foram grandes

Os consultores da Booz detectaram ainda um decréscimo de 7,4% nos investimentos em P&D nos três primeiros meses de 2009. Esse número se refere a 522 das 1.000 companhias participantes do estudo. O índice é menos da metade do declínio das vendas registradas no mesmo período, que ficou em 18,5%. Contudo, entre os gestores de P&D entrevistados pelos consultores, 70% afirmaram que vão manter ou aumentar seus investimentos em P&D em 2009, e 3/4 deles vão manter ou expandir seus portfólios de projetos.

Sérgio Queiroz afirma que seria de se esperar um grande corte nos investimentos em P&D se a crise econômica fosse mais duradoura. "Mas os mais pessimistas acham que vai levar dois anos para a economia se recuperar", lembra. Para ele, em 2010 ainda poderá haver alguns efeitos da crise, mas em 2011 as empresas deverão, em sua maioria, recuperar seus planos de investimento. "Em um quadro como esse, por que o investimento em P&D iria cair, se estamos falando de uma atividade que não é feita para amanhã?"

"Espera-se uma recuperação do investimento a taxas rápidas. Podemos demorar a chegar ao patamar de 2007 e do primeiro semestre de 2008, quando estávamos no pico, mas devemos, no final de 2010 ou começo de 2011, retomar os valores de 2007, se o cenário se mantiver", também aposta Pacheco. Para ele, o gasto em P&D seguirá a mesma tendência de elevação a ser vista nas taxas de investimento, mas em um ritmo menos veloz.

Para Queiroz, a crise não mudará muito o que já vinha ocorrendo no universo da pesquisa e desenvolvimento nas empresas. "A crise não é um ponto de inflexão; pode apenas desviar a curva: se estávamos indo para a open innovation, vamos um pouco mais; vamos reduzir os investimentos em exploration, ter mais inovação em parceria que in house, mas são todas pequenas defletidas, não é um turning point", conclui. ,

No Brasil

Carlos Américo Pacheco afirma que, no Brasil, houve uma queda vertiginosa no investimento em nova capacidade. "Existe forte correlação entre gasto de investimento e gasto em P&D, até porque grande parte do nosso gasto em P&D é em máquinas e equipamento para laboratório e atividades de P&D. As empresas ampliam gastos em P&D quando aumentam seus investimentos globais", destaca. Apesar de esperar uma redução, Pacheco lembra que uma pesquisa divulgada no começo de 2009 pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostrou que o gasto em P&D cairia muito menos que o investimento.

O economista também chama a atenção para o fato de dois setores serem os maiores investidores em P&D no Brasil. O de petróleo é o que gasta mais do ponto de vista de intensidade (venda sobre o faturamento). O outro é o automotivo. "Apesar de ter tido um desempenho bom do ponto de vista de vendas, as empresas automotivas cortaram tudo o que podiam", diz Pacheco. No último semestre de 2008, segundo ele, problemas de caixa das empresas, aliados à crise de crédito, levaram as firmas a cortar seus gastos correntes e investimentos e prorrogar os planos de expansão. "A retomada de investimento fará com que as empresas retomem esses planos", acrescenta.

"O setor automotivo é um bom exemplo, com as empresas voltando a discutir os planos de expansão para o Brasil, que envolvem muita engenharia automotiva nova", comenta. Segundo ele, o investimento em P&D das automotivas no Brasil é considerado relativamente baixo, mas o setor é tão grande que acaba se tornando um gasto muito importante para o agregado brasileiro. Ele cita ainda a Embraer, que tem um gasto alto, mas pesa muito pouco na estrutura industrial em termos de faturamento. Na avaliação de Pacheco, para esses segmentos todos a trajetória é de queda e retomada dos gastos de P&D, com um ciclo parecido com o de investimento.


 

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