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:: Meio Ambiente

Ser sustentável é uma obrigação

Num momento em que se discute exaustivamente o aquecimento global, conceber novas maneiras de cuidar do meio ambiente virou obsessão de grandes companhias mundo afora. A pesquisa realizada para o Guia EXAME de Sustentabilidade 2008 mostra que as empresas brasileiras não fogem a essa tendência. Das 128 participantes que responderam a todo o questionário, 89% já têm política corporativa de responsabilidade ambiental. A maioria está dando apenas os primeiros passos, mas muitas já perceberam que critérios ambientais também oferecem oportunidade para cortar custos e se diferenciar da concorrência. "A evolução nos critérios ambientais mais importantes, como consumo de água e energia e emissões de gases, revela que as empresas brasileiras começam a ter ações mais claras para reduzir o impacto de suas atividades", diz Roberta Simonetti, coordenadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, parceira de EXAME na elaboração da metodologia do questionário.

Uma das novas fronteiras na busca por uma operação com menos impacto no meio ambiente é a redução das emissões de gases de efeito estufa. Em maio, o governo federal e 16 empresas aderiram ao GHG Protocol, medida internacional usada para administrar as emissões desses gases. Para Otavio Costa, gerente para a América do Sul da DNV, empresa especializada em auditar as emissões de gases, o movimento para reduzir os lançamentos de gases do efeito estufa está apenas começando a fazer parte do rol de prioridades das companhias brasileiras - mas deve crescer muito nos próximos anos. "O compromisso de reduzir as emissões pode se tornar obrigatório em países emergentes a partir de 2012, com a revisão do Protocolo de Kyoto", afirma Costa. "Quem esperar até lá vai ficar para trás."

Os resultados da pesquisa realizada por EXAME apontam que 39% das empresas brasileiras já têm metas para reduzir suas emissões de carbono - ante 32% das empresas participantes do levantamento de 2007. Entre elas está a subsidiária brasileira da Unilever. A multinacional gerencia os danos causados por toda a sua cadeia produtiva - da fabricação à distribuição. Os caminhões que entregam os produtos, por exemplo, contam desde 2006 com um novo material de revestimento nas câmaras frigoríficas, que dispensa motores de refrigeração. Mais leves, os veículos consomem menos combustível. Além disso, divisórias flexíveis permitem o transporte de diversos produtos no mesmo caminhão, reduzindo o número de viagens. Apenas com essas medidas, a emissão de gás carbônico à atmosfera caiu 2 milhões de toneladas no ano passado.

No quesito eficiência energética, as empresas brasileiras estão mais adiantadas. Das 128 avaliadas, 77% têm metas para reduzir o consumo - ante 72% em 2007. Algumas delas, como a companhia elétrica CPFL, criaram projetos que envolvem até seus consumidores. Para melhorar a eficiência de sua distribuição, a CPFL investiu neste ano 23 milhões de reais num projeto com famílias de pouca renda, que começou pela Baixada Santista e foi ampliado a outras regiões de São Paulo. Técnicos visitam as casas de bairros carentes para regularizar ligações elétricas e também trocam lâmpadas, geladeiras e fiações antigas por equipamentos mais econômicos. Em oito meses, já foram instaladas, de graça, 13 000 geladeiras e 600 000 lâmpadas fluorescentes. A economia para a CPFL num ano chegou a 42 000 megawatts-hora - suficiente para abastecer por um ano uma cidade do porte de Cubatão, com 117 000 habitantes.

Metas para reduzir o impacto ambiental não trazem apenas redução de custos. Podem se transformar também em fontes de receita. A maior parte das empresas que responderam ao questionário - 66% - adota critérios ambientais para o desenvolvimento de novos produtos ou serviços. Em 2007, eram apenas 46%. Aos poucos, as companhias brasileiras percebem a oportunidade que os pesquisadores da Universidade de Yale Daniel Esty e Andrew Winston chamam de "estratégia ambiental". No recém-lançado livro O Verde Que Vale Ouro, eles afirmam que tradicionais vantagens competitivas, como terceirização e acesso a matéria-prima de baixo custo, já estão disponíveis para qualquer empresa (veja resenha na pág. 134). "Quem quiser sobreviver deve encontrar novas maneiras de se diferenciar", afirmam Esty e Winston. Nesse contexto, inovações que não agridam o meio ambiente podem se tornar um diferencial até mesmo para empresas tradicionalmente inovadoras. A gigante da indústria química DuPont, dona de marcas como Lycra e Nylon, por exemplo, estabeleceu em 2006 a meta de ampliar em 6 bilhões de dólares suas receitas com produtos ambientalmente corretos até 2015. Um dos lançamentos de maior impacto foi anunciado em abril, na Alemanha - e já está disponível também no Brasil. É uma resina feita à base de amido, que substitui plásticos derivados de petróleo. Batizada de Biomax TPS, ela é biodegradável em contato com a água e pode ser usada em embalagens para produtos com baixa umidade, como chocolates e biscoitos - e já está em uso pela inglesa Cadbury.

Os resultados da pesquisa apontam que a postura sustentável das companhias estende-se, cada vez mais, à cadeia de fornecedores. Das participantes da pesquisa de EXAME, 67% já monitoram o impacto ambiental de seus fornecedores. Em relação ao impacto social (como a não-utilização de trabalho escravo ou infantil), o percentual sobe para 83%. Dessas companhias, 58% já adotam ações concretas para encerrar contratos e até processar quem não se enquadre às exigências. Trata-se de uma mudança drástica - já que no ano passado apenas 5% previam essas medidas. Na Europa e nos Estados Unidos, essa tendência já é realidade. Em setembro deste ano, por exemplo, o Wal-Mart - maior varejista do mundo - pediu a todos os seus fornecedores que parassem de comprar algodão do Uzbequistão, país que produz 800 000 toneladas anuais do produto - por uso de trabalho forçado infantil na lavoura.

No Brasil, o Wal-Mart integra o grupo de 32% das empresas que adotam critérios sociais, e de 29% das que têm metas ambientais, para remunerar seus executivos. "Essa demanda ainda é muito recente, mas em cinco anos deve virar prática comum entre as empresas", diz Marcos Próspero, vice-presidente de capital humano do Wal-Mart. Na maior empresa de varejo do mundo, há três anos a sustentabilidade é uma das seis metas levadas em conta para o pagamento de bônus aos executivos - que pode chegar a um salário extra por ano. Já na Masisa, produtora de painéis de madeira para interiores, todos os 1 300 funcionários podem receber bônus equivalente a 15% do salário se a empresa bater suas metas de redução de consumo de água e de geração de resíduos. Para os executivos, o ganho pode chegar a 35%.

Entre todos os indicadores da pesquisa de sustentabilidade, os resultados mais tímidos dizem respeito à transparência das empresas. O percentual de companhias com compromisso formal de combater a corrupção, por exemplo, chegou a 90% - no entanto, uma leitura mais cuidadosa do relatório revela que apenas 47% delas têm políticas específicas para a questão. Uma das exceções é o Itaú, que possui uma comissão superior de ética coordenada pelo próprio presidente da empresa e conta ainda com diversos comitês de ética. A estrutura está formada há oito anos. Todos os funcionários e fornecedores do banco precisam assinar o código de ética e, de tempos em tempos, passar por avaliações sobre o tema. "As empresas que não colocarem a ética como pano de fundo de suas ações e que não deixarem muito claros seus valores terão dificuldades em breve", diz Antonio Matias, presidente do comitê de ética do banco Itaú.

Mais transparência

Tradicionalmente, esses valores são expressos nos relatórios de sustentabilidade - outro quesito em que as companhias brasileiras ainda dão seus primeiros passos e precisam evoluir nos próximos anos. Embora 83% divulguem relatório (ante 72% em 2007), apenas um terço delas observa critérios reconhecidos internacionalmente, como auditoria externa e metas de desempenho. Uma das saídas encontradas por algumas companhias para se comunicar com os diversos públicos interessados, os stakeholders, é marcar encontros periódicos. No Bradesco, funcionários organizam seis encontros anuais com clientes, ONGs e fornecedores para colher críticas e sugestões. Os temas mais comuns e relevantes são acrescentados ao relatório do ano seguinte. "É um sistema que se retroalimenta: ao ouvirmos nosso público, direcionamos nossas ações, que por sua vez deixam o próximo relatório mais completo", afirma Jean Philippe Leroy, diretor de relações com o mercado do Bradesco.

Não é só no Brasil que a transparência está na linha de frente dos debates em relação à sustentabilidade. Em 2008, ela foi tema da conferência global da GRI (Global Reporting Initiative), organização que estabelece indicadores essenciais para relatórios ambientais e sociais. A estatal de energia sueca Vattenfall AB, cujo caso foi apresentado no encontro, chegou a usar os indicadores da GRI como base para reformular suas metas anuais para os negócios. Desde então, critérios internacionalmente reconhecidos de sustentabilidade norteiam as principais decisões dos executivos da empresa. A Vattenfall decidiu, por exemplo, adotar o diálogo aberto com os stakeholders antes de tomar qualquer decisão, como ouvir a população local, o governo e os fornecedores antes de decidir pela construção de uma usina eólica ou a carvão. Ao fim do ano, a empresa elabora um relatório único e todas as informações e os indicadores relacionados à sustentabilidade da companhia podem ser encontrados junto aos dados do desempenho financeiro.

Nem sempre as informações precisam aparecer em relatórios caprichados, com capa dura e papel especial. Elas podem ser divulgadas por meio de iniciativas mais simples. A Natura, por exemplo, começou em 2007 a estampar uma tabela ambiental na embalagem de seus produtos. Em poucas linhas, revela a natureza dos ingredientes - se são de fontes renováveis ou não - e da embalagem - que pode ou não ser feita de material reciclado. De acordo com Mervyn King, presidente da GRI, informações claras e acessíveis, que contenham aspectos tanto positivos quanto negativos, serão cada vez mais valorizadas não só por empresas e fornecedores mas, principalmente, pelos consumidores. Quanto antes as empresas se derem conta, maiores as chances de competirem nesse novo cenário que se impõe.

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