Logomarca IETEC

Buscar no TecHoje

Preencha o campo abaixo para realizar sua busca

Gestão

À frente da corrida pelo impacto zero

Revista Exame
Revista Exame

Um grupo cada vez maior de companhias em todo o mundo vem se empenhando para dar um choque de ecoeficiência à sua gestão. A perspectiva de escassez de água limpa, a elevação dos custos de energia não renovável e a crescente demanda da sociedade por uma atitude mais responsável criaram um novo e desafiador cenário para as empresas -- e também uma série de oportunidades de conciliar a diminuição do impacto ambiental com uma produção mais eficiente.

Uma estimativa recente elaborada pela ONG inglesa The Climate Group aponta que a economia de países e empresas com programas de uso eficiente de recursos, como água e energia, pode chegar a 2,5 trilhões de dólares por ano. EXAME selecionou três casos de empresas internacionais que se tornaram referência no assunto -- embora ainda estejam distantes do chamado "impacto zero".
A obsessão pela medida
Um minucioso arsenal de metas e medidas levou a indústria farmacêutica suíça Roche a um dos mais abrangentes programas de reestruturação energética em todo o planeta. Há objetivos ambiciosos e verificados ano a ano para reduzir o consumo de diversos insumos e as emissões de gases de efeito estufa. Como resultado, enquanto as vendas anuais triplicaram de 1996 a 2006, alcançando cerca de 38 bilhões de dólares, o consumo energético manteve um ritmo menos acelerado e cresceu duas vezes.
O consumo por empregado, uma das métricas mais usuais para verificar os resultados de um plano de eficiência energética numa empresa em expansão, foi reduzido em 29% em dez anos. A companhia criou até seu indicador de ecoeficiência, conhecido pela sigla em inglês EER (ou taxa de ecoeficiência), que decuplicou no mesmo período.
Uma das principais rupturas no caso da Roche foi substituir o carvão por outros combustíveis renováveis em suas fábricas em cerca de 150 países a partir de 2005. Essa mudança foi fundamental para a redução de 23% de suas emissões de carbono em 2006. Na última década, a queda acumulada é de 72% -- resultado que levou a Roche a ganhar em 2007 o primeiro prêmio ambiental realizado pelo jornal britânico Financial Times.
A busca pela eficiência exigiu que a Roche passasse uma espécie de pente-fino em todos os seus processos. A empresa iniciou programas de reaproveitamento de gases para a produção de energia, substituiu lâmpadas incandescentes por fluorescentes, melhorou o isolamento das paredes de seus prédios (para reduzir a necessidade de aquecimento em dias frios) e vem ampliando sua frota de carros híbridos.
A empresa contrata regularmente centenas de auditores para verificar os mais de 120 prédios, entre escritórios e fábricas da companhia ao redor do mundo, para acompanhar o cumprimento das metas -- revistas e ampliadas a cada cinco anos. "Um de nossos objetivos mais ambiciosos agora, ainda em estudo, é apoiar universidades em pesquisas sobre economia de energia e fontes renováveis", diz Schwob.
 
Força para a cadeia
 
Empresas que se propõem a reduzir o uso de água costumam centrar fogo apenas no consumo de suas linhas de produção. A anglo-holandesa Unilever, contudo, decidiu assumir uma postura mais abrangente. Nos anos 90, seus executivos concluíram que as operações fabris representavam menos de 5% do que eles chamaram de water imprint -- ou os rastros de consumo de água em toda a cadeia que precede a produção até o consumo final.
A maior parte desses rastros estava associada ao cultivo de matérias-primas de seus alimentos e ao uso pelos consumidores de seus produtos de limpeza e higiene pessoal. A conclusão foi vital para que a empresa adotasse um enfoque inovador em relação ao tema. Em vez de se preocupar apenas com suas operações, a Unilever passou a desenvolver projetos que envolvessem seus fornecedores e também estimulassem os clientes a usar menos água.
No caso dos produtores, a empresa começou a disseminar técnicas de irrigação por gotejamento nas lavouras de tomate, espinafre, chá e ervilhas. Na outra ponta -- a do consumo --, a abordagem também foi audaciosa. Em 2005, a Unilever decidiu que sua área de pesquisa e desenvolvimento de produtos domésticos e de cuidado pessoal precisaria reavaliar a integração dos aspectos social, econômico e ambiental no desenvolvimento de novas marcas e também na revisão de produtos existentes. Na prática, o resultado foi a criação de produtos como o detergente para lavar roupas All Small and Mighty, com dois terços a menos de água em sua composição do que seus concorrentes.
Dentro de casa, a empresa também vem colhendo bons resultados. Desde 1995, a Unilever reduziu em suas fábricas mundialmente 58% de consumo de água por tonelada. Em regiões secas, muitas das unidades da Unilever perseguem a meta de zerar o despejo de efluentes líquidos nos rios, reciclando-os para uso na irrigação ou na lavagem das fábricas. Na Índia, 36 das 48 unidades da companhia já alcançaram o objetivo.
A matéria-prima 100% verde
 
Presente em cerca de 50 países e com faturamento de 15 bilhões de dólares em 2006, a sueca Svenska Cellulosa Aktiebolaget (SCA) foi uma das primeiras indústrias de celulose e papel a chegar ao maior patamar de ecoeficiência para o setor -- toda sua matéria-prima é reciclada ou certificada. A fibra reciclada representa quase metade dos insumos processados por suas 45 fábricas de embalagens, produtos florestais e papéis de usos diversos.
A atividade acabou virando um novo negócio para a SCA, que hoje também vende material reciclado para outros clientes na Europa e faturou 586 milhões de dólares no ano passado. O restante da matéria-prima vem de madeiras certificadas. A área florestal da companhia ocupa 2,6 milhões de hectares no norte da Suécia e é certificada segundo os padrões do Conselho de Manejo Florestal (na sigla em inglês, FSC) -- o mais valorizado mundialmente tanto pelas organizações não-governamentais quanto pelas companhias que atuam no setor. Na SCA até as toras compradas de fornecedores devem seguir as regras do FSC.
Os primeiros passos da nova política socioambiental da SCA, na qual a empresa investe quase 130 milhões de dólares por ano, foram ensaiados ao longo dos anos 90 em reação às críticas de organizações ambientalistas sobre a falta de garantias de que a matéria-prima de suas fábricas vinha de florestas exploradas de maneira sustentável. "Resolvemos dialogar com essas entidades e nos comprometemos com o manejo responsável de nossas florestas", disse a EXAME Bjorn Lyngfelt, vice-presidente de comunicações do braço de produtos florestais da SCA.

Como parte de seu programa de conservação ambiental, a SCA mantém intactos 7% das áreas de exploração de sua floresta, o que exige investimento de aproximadamente 13 milhões de dólares por ano nas compras de matéria-prima de terceiros. "Não conseguimos repassar o acréscimo de custos aos preços de nossos produtos, mas temos muitos ganhos", diz Lyngfelt. "As relações com nossos clientes são mais estáveis, mesmo quando os nossos preços sobem."

Indique este artigo a um amigo

Indique o artigo