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:: Gestão e Tecn. da Informação

Via própria ao software brasileiro

Cícero José da Silva

CEO da Linkware Solutions

Gazeta Mercantil

No curto período de dez anos, a industria indiana de software saltou de uma condição de irrelevância para se tornar uma das maiores forças de exportação daquele país. Agora, com a chegada ao poder no Brasil de um grupo político interessado na afirmação de uma identidade exportadora para o País, a industria nacional de software passa a encarar a Índia como possível paradigma.

A nosso ver, entretanto, a questão que falta ser colocada é: até que ponto vale à pena aos brasileiros se apegarem tão rapidamente ao modelo indiano, em vez de buscar um paradigma próprio, mais efetivamente sintonizado com a nossa cultura e com as nossas vocações já reveladas.

Antes de buscar a resposta, é necessário admitir que, mesmo tendo apresentado inúmeros bolsões de excelência tecnológica, a indústria de software local estava, até há pouco, à mercê de uma crise de baixa estima frente ao mercado mundial – o que, de resto, valeria para os demais setores, com as raríssimas exceções dos agrobusiness, petróleo, aço e outros poucos.

Os cerca de US$ 100 milhões em software exportados pelo Brasil ao longo de 2001 representam uma sétima parte do montante de exportações da Ìndia no período. São estimativas oficiais, vindas de entidades como a Softex ( a ainda modesta agência de fomento às exportações de software do Brasil) e sua poderosa congênere indiana Força-Tarefa Nacional de Tecnologia da Informação e Desenvolvimento de Software (NTFITSD).

O que a Índia tem de vantagem em relação ao Brasil são esses dez anos de esforços concentrados, voltados para a inovação tecnológica, a cargo da iniciativa privada, sob a batuta incentivadora de um aparato estatal preocupado com a competitividade externa.

Mas nossa grande desvantagem nesse aspecto não deixa de ser compensada por um dado qualitativo. Enquanto a vocação indiana está numa incrível capacidade de redução do custo final do software (o que resulta da combinação de mão-de-obra abundante, barata e bem treinada com a adoção de processos altamente bem cuidados), o caso da indústria brasileira ainda está para ser dimensionado.

Ao ostentar para o mundo o seu modelo de declaração de impostos via e-mail ou sua incrivelmente simples e eficiente urna eletrônica, o Brasil dá provas cabais de possuir não só capacidade de replicação em escala (o chamado modelo "off-shore" dos indianos), mas de ter vocação inovadora em classe internacional.

Qualquer outro governo ou qualquer companhia de "utilities" (as grandes empresas de telefonia, água, luz, escolas, etc.) do mundo poderia facilmente de se beneficiar da cutomização de soluções como a ReceitaNet ou do Sistema de Urnas Eletrônicas para a prestação de serviços em massa. Essas são inteligências já perfeitamente construídas e estão entre as poucas do planeta em sua magnitude testadas em escala real.

Para os defensores da adoção por aqui do modelo "off shore" indiano, um argumento importante é o nosso custo de hora-homem aplicado à tecnologia: enquanto nos EUA esse custo beiraria US$ 60,00, no Brasil como na Índia, estaria perto de US$ 15,00.

Assim, nada mais natural que atrair o capital europeu ou norte-americano para a montagem de grandes "fábricas de software". Para tanto, a condição fundamental seria o investimento em processos na busca de certificações como a CMM (Capability Maturity Model), que representam para o software a chave de entrada no mercado mundial.

Mas o problema desse modelo – e que já vem sendo percebido na Índia – é que a alocação de cérebros para execução de processos (ainda que processos "ótimos") pode gerar grandes divisas exportadoras, mas não posiciona uma nação em condição de competitividade numa perspectiva de longo prazo. De fato, um ganho considerável de capital ficará com o país "off-shore"; mas o verdadeiro valor – a inovação – pertencerá ao país cliente.

O Brasil vem despontando justamente por sua imagem de inovador no segmento de software. Não há, em qualquer lugar do planeta, um tal conteúdo de inteligência estratégica em sistemas de gestão financeira como o que existe no Brasil. Nossos modelos de compensação, nossos sistemas de tesouraria on-line e nossa profusão de sistemas de varejo são apenas a ponta do iceberg de uma tecnologia de fazer inveja à Europa e até mesmo ao Japão e aos EUA.

Será um grave erro se o País vier a apostar na redução do custo final do software, como nosso principal diferencial estratégico. Nossa inteligência de software supera o que há de mais avançado em todo o mundo em áreas de alta complexidade, como o aproveitamento do legado (que estica à exaustão o ciclo de vida dos equipamentos e sistemas em uso nas grandes empresas), e não, em sistemas de uso de massa (ou commodities de software), cujo pulo-do-gato está no preço.

A própria Índia, repito, já vem revendo seu estratagema inicial de vendedora de processos (por vezes até fragmentários) de produção, e começa a investir pesado em inteligência inovadora. E é aí, por sorte nossa, que estamos dez anos à frente da indústria de software indiana.

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