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:: Mineração

O status da análise de investimento

Pétain Ávila de Souza

Engenheiro de minas, economista, pós-graduado em economia mineral/Planfap/FGV, mestre em ciências em política e administração de recursos minerais pela Unicamp, professor de elaboração e avaliação econômica de projetos da Universidade Católica de Brasília (DF)

Nos dias atuais a análise de investimento pode ser dividida em quatro ramos interdependentes: avaliação econômica, análise de sensibilidade, análise de risco e teoria da utilidade. Os métodos modernos da avaliação econômica têm como base os conceitos de valor do dinheiro no tempo (conceito moderno de juro) e de fluxo de caixa (FC). Os mais importantes desses métodos são o do valor atual (VA) e o da taxa interna de retorno (TIR), ambos baseados no desconto dos Fcs e o método do valor anual equivalente (VAE), baseado na uniformização de FCs. Os FCs anuais são constituídos de entradas e saídas efetivas de caixa, que são obtidas pela "técnica da melhor estimativa". Como resultado da aplicação desses métodos tem-se o retorno do investimento expresso pelo valor atual (calculado pela taxa de atratividade do investidor), pela taxa interna de retorno do investimento ou pelo valor anual equivalente (também calculado à taxa de atratividade do investidor).

A análise de sensibilidade tem o objetivo de identificar as variáveis estratégicas do empreendimento. As variáveis chaves são aquelas que provocam uma intensa variação (sensibilidade) no retorno do projeto ou possuem um elevado nível de risco e incerteza nas suas estimativas.

A análise de risco, compreendendo a técnica analítica e a simulação de Monte Carlo (de uso mais generalizado), enriquecem os resultados da avaliação econômica. A simulação de Monte Carlo trabalha com as variáveis estratégicas selecionadas pela análise de sensibilidade e fornece como resultado a distribuição de probabilidade de todos os retornos possíveis para o projeto em estudo. Dessa forma, responde a perguntas do tipo: qual a probabilidade do retorno do projeto ser superior à rentabilidade exigida pelo empreendedor? Outras perguntas também podem ser respondidas de forma mais ilustrativa do que a resposta "pontual", dada pela avaliação econômica.

O conceito de valor esperado, usado na análise de risco, pondera os resultados possíveis por suas probabilidades de ocorrência, o que, para muitos analistas, leva em conta adequadamente, os riscos. Entretanto, para o investidor, risco não é somente uma função de distribuição probabilística do retorno financeiro, mas também da magnitude do capital exposto à chance de perda econômica. Assim, o uso exclusivo do valor esperado na tomada de decisão implica em que o investidor é indiferente ao montante aplicado e ao potencial de lucro ou perda do negócio. Em outras palavras, ignora a habilidade ou disposição da empresa para assumir o projeto. Dessa forma, a teoria da utilidade vem complementar as técnicas citadas. Para tanto, usa a função ou curva de utilidade -que descreve o comportamento (aversão, indiferença ou inclinação) do investidor em relação ao risco e aos conceitos de equivalente certo (certainly equivalent)- que quantifica as atitudes do investidor frente ao risco -e de tolerância ao risco- medidor formal de propensão ao risco. Também, a teoria da utilidade mostra as implicações da empresa em estabelecer e implementar uma política de risco, em termos de melhoria de qualidade das decisões, tanto para diluição de risco de um mesmo empreendimento como na diversificação do risco, mediante a otimização de um portfólio de investimentos.

Pesquisas realizadas nos países industrializados têm demonstrado que a indústria mineral ainda não percebeu a grande importância da análise de risco e da teoria da utilidade no processo de decisão, embora sejam técnicas amplamente empregadas no setor de petróleo. Os métodos modernos da avaliação econômica começaram a ser aplicados a partir dos meados dos anos 60. O uso de tais métodos passou a ser uma exigência da época no processo de alocação de recursos oriundos dos orçamentos empresariais. Para se ter uma idéia da necessidade do emprego de tais métodos, no início dos anos 80, a previsão era de que durante a última década deste século, nos Estados Unidos, seriam investidos mais dólares do que nos últimos 200 anos.

Antes do surgimento e divulgação de tais métodos, a avaliação econômica de projetos no Brasil tinha como base alguns índices contábeis, que estão mais relacionados à empresa do que ao empreendimento. Os projetos elaborados visavam a obtenção de financiamento nas agências governamentais de desenvolvimento, cujos critérios de análises estavam mais preocupados com as garantias reais do que com o mérito do empreendimento. Ainda na atualidade, a literatura da análise de investimento cita o método da taxa de retorno contábil como técnica utilizada por alguns analistas, além de outras técnicas simplificadas, baseadas em tendências históricas. Deve-se observar que a análise de investimento, base da decisão de investir, pondera vantagens e desvantagens futuras e que o ocorrido no passado não pode ser modificado pela decisão, embora possa ajudar a antever os resultados.

Na década que antecedeu a promulgação da atual Constituição Federal, o perfil da operacionalidade dos títulos de lavra (decretos e manifestos de mina) era o seguinte: 12% dos títulos respondiam por 92% do valor da produção mineral brasileira; 28% respondiam pela parcela remanescente desse valor; e 60% estavam inativos. Como os dispositivos constitucionais previam penalidades quanto aos títulos inativos, esse perfil, ainda que real, deve ter sido substancialmente desfigurado pela prática da lavra simbólica.

O recém lançado Plano Plurianual para o Desenvolvimento do Setor Mineral (1955-2010) aponta a necessidade, para o crescimento do país até o ano 2010, de investimentos de US$ 35 bilhões, sendo US$ 31 bilhões na lavra e beneficiamento e o restante na pesquisa mineral.

A concepção moderna do processo decisório de alocação orçamentária para um grande grupo empresarial é a tomada de decisão em dois níveis: "em nível de projeto", no qual os projetos são formulados; e "em nível de orçamento", de hierarquia superior, na qual a decisão de investir deve ser justificada.

Diante de tal cenário -caracterizado pela concentração de investimentos previstos para os próximos 15 anos e pela necessidade de aproveitamento das jazidas inativas, aumento da capacidade de produção das ociosas e início de operação das novas descobertas advindas da pesquisa mineral -o binômio experiência prática/conhecimento teórico da equipe avaliadora e dos responsáveis pela decisão deve sempre ser considerado. Não é mais possível admitir que o problema da alocação orçamentária da empresa seja tratado empiricamente, apenas com base na intuição de "executivos bem iluminados". O estágio atual da indústria mineral exige modelos da análise de investimento, baseados nos princípios da engenharia financeira e da ciência da decisão e utilizados em benefício do desempenho empresarial.

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