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Gestão

Diagnóstico ambiental inicial em área industrial potencialmente impactada

Adrian Boller

Biólogo; pós-graduado em Gestão Ambiental Empresarial pelo IETEC.

Resumo

O método proposto reflete os preceitos do Diagnóstico Ambiental Inicial à semelhança da Fase I da ASTM (Phase 1). Sua aplicação baseia-se na identificação e hierarquização de áreas prioritárias para pesquisa ambiental dentro de instalações industriais complexas. O método proposto tem como objetivo calcular o Potencial de Risco (PR) das áreas potencialmente contaminadas dentro de uma planta industrial, para seleção de alvos específicos que serão submetidos a avaliação na Fase II. Os estudos são conduzidos levantando-se informações sobre a área industrial e sobre aspectos relativos ao funcionamento rotineiro das suas unidades, assim como sobre eventos singulares (acidentes, por exemplo). Os parâmetros levantados são associados a coeficientes que, depois de matematicamente operados, resultam no PR. Cada valor de PR é associado a um grau diferentes de prioridade para a pesquisa ambiental futura. A execução dos trabalhos de campo futuros, por exemplo através da execução de sondagens em malha regular para medição de COV (compostos orgânicos voláteis), obedecerá a essa escala de prioridades.

1. Introdução

Dada a dimensão das áreas normalmente ocupadas por unidades industriais, o tempo médio de existência desse tipo de instalação e a imensa complexidade do sistema industrial instalado nessas unidades, a definição de pré alvos e alvos para investigação de contaminações de solos e águas subterrâneas dentro dessas unidades com critérios estritamente objetivos é ação bastante complexa. No intuito de contribuir com o processo de definição de mecanismos objetivos de avaliação, propõe-se aqui uma estratégia baseada numa análise compartimentada dos diversos constituintes operacionais das unidades e dos parâmetros a eles relacionados, remontando-os depois de analisados para a obtenção do quadro geral a semelhança da Fase 1 da ASTM (American Society for Testing and Materials) (ASTM 2000) e da ASTM 1912 (ASTM 1998).

2. Método

O método proposto para execução dessa avaliação baseia-se numa análise compartimentada e iniciase com a determinação de Potenciais de Risco (PR), associáveis a cada unidade da instalação industrial. Esses potenciais por sua vez, são obtidos através da determinação de variáveis operacionais vinculáveis direta e indiretamente a agentes potencialmente impactantes de solos e águas subterrâneas.

2.1 Avaliação dos parâmetros para cálculo do PR (Potencial de Risco)

Para tornar viável a avaliação dos parâmetros base do cálculo do Potencial de Risco, é necessária a organização de alguns parâmetros de fundo. Essa organização deve ser feita através das seguintes classificações:

2.1.1. Definições dos Parâmetros de Fundo

O Potencial de Risco (PR) é um parâmetro de caráter numérico, que reflete a probabilidade de ocorrência de contaminação de solos e água subterrâneas associáveis a cada unidade específica de uma planta industrial.

Tal potencial tem dimensão numérica, porém possui um caráter eminentemente semi-quantitativo. Ele busca propiciar condições objetivas para que se possa:

-Determinar zonas que possam ser objetivamente classificadas como pré-alvos para etapas posteriores de diagnóstico;

-Ordenar objetivamente os pré-alvos determinados em termos do grau de prioridade relativa para investigação.

O PR é função direta dos aqui denominados parâmetros de fundo, relacionáveis às condições normais de operação da planta. Identifica-se dois grupos de parâmetros de fundo: os parâmetros operacionais, vinculados diretamente às condições normais de operação de cada unidade e os parâmetros agravantes, vinculados a singularidades claramente identificáveis como tal na história da unidade. Os principais parâmetros de fundo são:

2.1.1.1 Parâmetros de Fundo Operacionais:

A) Ocorrência objetiva da presença de agentes potencialmente impactadores do meio ambiente em cada unidade da planta. Os agentes são agrupados nas seguintes categorias:

M = Matérias Primas;
I= Insumos, Reagentes e Catalisadores;
P = Produtos Gerados;
E = Efluentes Líquidos Gerados e
R = Resíduos Sólidos Gerados.

B) Tempo ao qual o meio físico subordinado a cada unidade da planta esteve sob influência de cada agente impactador identificado. Essa variável é associável diretamente ao tempo de operação de cada unidade, ou seja, à sua idade.

C) Grau de disponibilidade concreta de cada agente impactante ao meio ambiente, em função do seu maior ou menor isolamento físico dentro das estruturas de cada unidade.

D) Magnitude dos volumes de cada agente operado em cada unidade.

2.1.1.2 Parâmetros de Fundo Agravantes:

Além dos parâmetros de fundo operacionais, são definidos mais dois parâmetros adicionais, denominados parâmetros de fundo agravantes, associáveis diretamente à ocorrência de eventos singulares (acidentes, vazamentos e eventos similares) e a indícios objetivos de contaminações emanados de pesquisas ambientais eventualmente já executadas na área. Os principais parâmetros de fundo agravantes são:

A). Ocorrência de contaminação objetiva de áreas/unidades em função de vazamentos/acidentes ou da disposição inadequada de agentes no meio, relatadas em documentos oficiais.

B) Identificação objetiva de indícios sobre a presença física de agentes impactadores do meio em áreas/unidade, a partir do resultado de pesquisas ambientais já executadas na área.

2.1.2. Quantificação dos Parâmetros de Fundo

Para que cada um dos seis parâmetros de fundo possam resultar no Potencial de Risco associável a cada área, cada um deles deve ser traduzido por um Coeficiente Numérico, obedecendo aos seguintes critérios.

A) Parâmetro Operacional: Coeficiente de Ocorrência - CO:

Esse coeficiente indica objetivamente a existência ou não do agente impactante na unidade avaliada. Pode assumir valores 0 ou 1, de acordo com o seguinte critério:

CO = 0: A unidade não apresenta vínculo operacional intrínseco com substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea;

CO = 1: A unidade apresenta vínculo operacional intrínseco com substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea.

B) Parâmetro Operacional: Coeficiente de Tempo - CT:

Esse coeficiente reflete a maior ou menor probabilidade da ocorrência de contaminações associadas à acumulação de eventos impactadores do meio, que podem ocorrer de forma discreta e contínua na operação diária das unidades. Assim, quanto mais antiga uma unidade maior será esse coeficiente. Ele pode assumir valores 0, 1 ou 2 de acordo com o seguinte critério:

CT = 0: As unidades nas quais ocorrem as substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea têm idade inferior a 5 anos;

CT = 1: As unidades nas quais ocorrem as substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea têm idade entre 5 e 20 anos;

CT = 2: As unidades nas quais ocorrem as substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea têm idade superior a 20 anos;

C) Parâmetro Operacional: Coeficiente de Disponibilidade - CD:

Esse coeficiente reflete a maior ou menor disponibilidade para o meio físico dos agentes presentes em cada unidade, em função do grau de isolamento que a estrutura física das unidades impõem a ele no dia-adia.

Agentes que circulam por estruturas totalmente e permanentemente fechadas têm menor probabilidade de atingir o meio ambiente em operação normal do que agentes que circulem por estruturas fechadas, mas que são eventualmente abertas para limpeza ou manutenção. Estes por sua vez, têm menor probabilidade de atingir o meio do que agentes que circulem por estruturas abertas e sujeitas a assoreamentos, acumulações, derramamentos ou vazamentos. Ele pode assumir valores 0, 1 ou 3 de acordo com o seguinte critério:

CD = 0: As substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água
subterrânea circulam em sistemas constantemente fechados e isolados do meio ambiente;

CD = 1: As substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea circulam em sistemas fechados na maior parte do tempo, porém abertos ocasionalmente para limpeza, manutenção ou atividades similares;

CD = 3: As substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea circulam em sistemas abertos, a maior parte do tempo;

D) Parâmetro Condicionante: Coeficiente de Magnitude CM:

Esse coeficiente reflete diretamente a quantidade física do agente em cada unidade. Parte do princípio de que agentes manuseados em pequenas quantidades têm menor poder impactante do que agentes manuseados em grandes quantidades. Dessa forma, é vinculado diretamente a volumes e pode assumir valores 0, 1 ou 2 de acordo com o seguinte critério:

CM = 0: As substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea ocorrem em volumes/massas com ordem de grandeza de litros/mês ou kg/mês;

CM = 1: As substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea ocorrem em volumes com ordem de grandeza de m3/mês ou toneladas/mês;

CM = 2: As substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea ocorrem em volumes com ordem de grandeza de milhares de m3/mês ou milhares de toneladas/mês.

E) Parâmetro Agravante: Coeficiente de Contaminação - CC:

Esse coeficiente reflete a ocorrência direta de informação sobre ocorrência de contaminações de solos em função da ocorrência de acidentes, vazamentos ou disposição ambiental inadequada. Pode assumir valores de 0 a 2 de acordo com o seguinte critério:

CC = 0: Não houve, na unidade/área, a ocorrência de evento associado a acidentes, vazamentos ou disposição inadequada de substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea;

CC = 1: Houve, na unidade/área, a ocorrência de evento espacial e temporalmente restrito, associado a acidente, vazamento ou disposição inadequada de substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea;

CC = 3: Houve, na unidade/área a ocorrência de evento espacial e temporalmente generalizado, associado a acidente, vazamento ou disposição inadequada de substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea.

F) Parâmetro Agravante: Coeficiente de Indício - CI:

Esse coeficiente reflete a existência direta de indícios sobre ocorrência de contaminações de solos/águas subterrâneas, em função de investigações ambientais já executadas na área. Pode assumir valores de 0 a 1 de acordo com o seguinte critério:

CI = 0: Não há indícios relatado nas investigações ambientais quanto à presença na unidade/área de substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea ;

CI = 1: Há indícios relatado nas investigações ambientais quanto à presença na unidade/área de substâncias ou compostos potencialmente causadores de risco ao solo ou água subterrânea.

2.1.3. Cálculo do Potencial de Risco (PR)

O conjunto dos valores associados a esses coeficientes permitem o cálculo do Potencial de Risco (PR) associável a cada unidade através da seguinte fórmula:

PR : [CO x (CT + CD + CM)] + CC + CI

2.1.4. Ordenação dos pré alvos de acordo com os PR associados a cada unidade

Uma vez definidos os valores dos PR de cada área/unidade atinge-se a última etapa do trabalho que é a definição de uma escala de prioridades e a ordenação das áreas/unidades em termos da seqüência em que cada uma delas deverá ser objeto das etapas posteriores de pesquisa. Com base nos valores do PR propõe-se a utilização de uma escala com cinco graus de prioridade para investigação das áreas/unidades.

Grau 0 - PR = 0 ou 1: Não demandam investigação;
Grau 1 - PR = 2 ou 3: Baixa prioridade;
Grau 2 - PR = 4 ou 5: Prioridade intermediária;
Grau 3 - PR = 6 ou 7: Prioridade elevada
Grau 4 - PR = 8, 9 ou 10: Prioridade máxima.

Cabe salientar que o grau de prioridade para investigação atribuído a cada área/unidade aplica-se exclusivamente a eventos de contaminações "in situ", ou seja, que tiveram sua origem no local da própria área/unidade avaliados. Por terem origem "in situ", as eventuais contaminações ocorridas iniciam-se na superfície do solo e percolaram através do subsolo, podendo ou não atingir a água subterrânea local. Como a água subterrânea flui através do subsolo, seguindo direções de fluxo impostas pelas cargas hidráulicas associadas à geometria do aqüífero, os eventuais contaminantes que atinjam a água também fluirão, podendo assim se afastar das área de origem da contaminação "in situ". Esse fenômeno traz um caráter "ex situ" à contaminação deslocada que a torna não associável ao PR da área/unidade original.

3. Avaliação de Campo Confirmatória

Depois de identificadas as área com maior PR e definida a escala de prioridades para pesquisa ambiental, poderão ser iniciados os trabalhos de campo. Estes, inicialmente devem priorizar o uso de técnicas associadas à maior amplitude espacial e à maior velocidade de aplicação. Como exemplo, pode ser citada a implantação de malha de Sondagens Prospectiva Rasas, para medição de teores de COV (compostos orgânicos voláteis).

Progressivamente, o enfoque deve passar a técnicas mais resolutivas, aplicadas a pontos objetivamente mais contaminados. O direcionamento assim dos trabalhos segue naturalmente para a abordagem da Fase 2 (ASTM 2002).

4. Conclusão

A proposta apresentada no presente trabalho busca viabilizar o cálculo e a utilização de parâmetros numéricos objetivos em abordagens iniciais de projetos de investigação ambiental, nos moldes da Fase 1 da ASTM e pode ser útil quando aplicadas a sites complexos.

5. Referências

ASTM (1998) Standard Guide for Accelerated Site Characterization for Confirmed or Suspected Petroleum Releases. ASTM E-1912, Philadelphia PA, USA.

ASTM (2000) Standard Practice for Environmental Site Assessments: Phase 1 Environmental Site Assessment Process. ASTM E-1527, Philadelphia PA, USA.

ASTM (2002) Standard Guide for Environmental Site Assessment: Phase II Environmental Site Assessment Process E1903-97 – 2002, Philadelphia PA, USA

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