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:: Editorial

Pelo direito de sonhar

Ronaldo Gusmão

Diretor executivo do Ietec e coordenador geral da Ecolatina - Conferência Latino Americana sobre Meio Ambiente e Responsabilidade Social.

Quando o poeta Gonçalves Dias compôs seu famoso poema "Canção do Exílio", em 1843, jamais poderia supor que passados pouco mais de 150 anos, sua saudosa terra já não teria tantas palmeiras e tampouco sabiás, cujos gorjeios o inspiraram. Se vivo fosse, provavelmente nem teria ânimo de interromper seu exílio voluntário para retornar a um Brasil devastado por tantas agressões à natureza.
Em virtude de tanto descaso, o Brasil detém índices lamentáveis de qualidade de vida, comparáveis aos países mais pobres do planeta. Na questão do serviço de água e esgoto perde, por exemplo, para países latino-americanos como Chile, Colômbia, México, Venezuela, Peru e Argentina. Mais da metade da população brasileira não tem acesso a rede de esgoto e na zona rural o índice chega a 94,4%.
Os problemas com saneamento básico não terminam por aí. Apenas 17% do lixo produzido no Brasil chega aos aterros sanitários; o restante é disposto em lixões causando grave poluição ambiental.
A falta de investimentos em saneamento básico interfere diretamente na qualidade de vida dos brasileiros. Segundo o IBGE, 60% das internações hospitalares no país são ocasionadas por doenças de veiculação hídrica. Uma demonstração do gerenciamento tortuoso dos investimentos públicos. Gasta-se muito mais para tratar os doentes que na prevenção dos males.
Tanta negligência não pode ser mais tolerada pela sociedade. E temos visto, felizmente, que alguma coisa já começa a ser feita. O acordo em torno do Protocolo de Quioto, ratificado em Bonn no mês de julho, é um exemplo. Embora represente um retrocesso nas metas de redução de emissão de carbono, o acordo é válido politicamente. Afinal todos resolveram enfrentar o líder mundial e maior poluidor do mundo: os Estados Unidos(25% das emissões de CO2), que teimam em permanecer fora do tratado.
Posições retrógradas como a dos Estados Unidos devem ser banidas, e o próprio cidadão americano saberá cobrar de seu governo e suas empresas. É preciso que cada um cumpra sua parte: os governos, ao estabelecerem políticas mais condizentes com a melhoria da qualidade de vida e do ambiente; os empresários, ao assumirem sua responsabilidade diante da preservação do planeta e do homem, investindo também na redução da pobreza; os profissionais e cientistas, ao buscarem mais informações e novas tecnologias que atendam essas exigências. Mas, sobretudo, a cada cidadão que deve agir individualmente adotando posturas ambientalmente corretas e coletivamente cobrando do poder político e econômico o respeito ao meio ambiente e à humanidade.
Afinal, nosso ambiente é a Terra. E se a economia ainda não está satisfatoriamente globalizada, os problemas que atingem a natureza não têm fronteiras. Só ações conjuntas podem trazer soluções eficazes. Assim, poderemos voltar a sonhar, como Gonçalves Dias, com uma terra embelezada por palmeiras e sabiás.

 

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