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Revista IETEC entrevista presidente da FIEMG

Harley Pinto
Revista IETEC

Retomada. Esta é a expectativa do presidente da federação que representa o segundo estado brasileiro em volume de exportações. Olavo Machado, presidente da FIEMG (Federação da Indústria do Estado de Minas Gerais), analisa, na entrevista a seguir, o que espera de 2013, quais são os gargalos para o Brasil se consolidar no mercado internacional e, principalmente, o que os profissionais brasileiros precisam fazer para se posicionar entre os melhores do mundo.

A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida à revista IETEC.

1) O que esperar da economia brasileira para os próximos anos?
O horizonte para a economia brasileira nos próximos anos é positivo - um cenário de referência realista seria prever o PIB crescendo a uma taxa média oscilando entre 3% e 4%. Mesmo não sendo uma taxa tão alta, com este nível de crescimento podemos projetar a continuidade de um cenário de emprego e renda em alta, a ampliação sustentada do crédito e a continuidade dos investimentos públicos e privados. Podemos, portanto, acreditar num horizonte positivo para o Brasil, ainda que à uma velocidade inferior a de concorrentes diretos, como a China. O Brasil ainda carece de fundamentos econômicos, regulatórios e de infraestrutura que nos permitam estimar que o país possa crescer a taxas chinesas, entre 7% a 10% ao ano. O PIB potencial brasileiro não pode superar uma taxa muito acima dos 5% anuais, considerando-se que o reflexo seria a geração de mais inflação e gargalos diversos no bom funcionamento da economia. 

2) Como o senhor vê, atualmente, as mudanças tecnológicas nos processos industriais no Brasil e no mundo?
A produção industrial no mundo e no Brasil, principalmente de bens voltados ao consumo, vem passando por mudanças tecnológicas muito rápidas, tanto nos processos industriais como nos produtos, com uma série de inovações e funcionalidades. Ao mesmo tempo, vivemos em um mundo onde a internacionalização das economias acaba provocando a integração nos hábitos culturais e de consumo. O que se cria hoje na China ou nos EUA, em poucos meses transforma-se em objeto de desejo nos quatro cantos do mundo, impactando a concorrência em nível global. O comportamento pode ser observado em uma série de segmentos, desde os eletrônicos – e o iPhone é um bom exemplo - ao vestuário, alimentos e bebidas, no geral, bens de produção e/ou duráveis. Na indústria de veículos, por exemplo, podemos observar rápidas mudanças técnicas, levando o produto da concorrência à obsolescência tecnológica. A inovação nos processos industriais torna-se, assim, uma exigência cada vez mais forte em função da concorrência acirrada de mercado, o que impõe a constante busca pelo aumento da produtividade do trabalho. Ademais, a sociedade e os governos cobram das empresas uma produção cada vez mais eficiente do ponto de vista do uso de recursos naturais esgotáveis.

3) Qual a importância da qualificação profissional para o desenvolvimento da indústria nacional?
A necessidade da indústria de investir na inovação de produtos e processos tem relação direta com a educação e qualificação dos recursos humanos. Cada vez mais, cabe ao trabalhador a realização de atividades que exigem conhecimentos de lógica, matemática, geometria, física, química e a capacidade de enxergar a importância de produzir com mais eficiência. Não há dúvida de que um trabalhador mais qualificado produz mais, gera maior valor por unidade de trabalho, o que, em última instância, beneficia a ele mesmo. Mais produtividade implica em melhores resultados para as empresas e, portanto, em ganhos incrementais advindos da participação dos empregados nos lucros.

4) O empresário brasileiro têm consciência da importância de capacitar seus colaboradores para o sucesso do seu negócio?
Não tenho dúvida disso. Se no Brasil ainda vemos uma baixa alocação de recursos das empresas para investimentos em P&D e inovação, a consciência em relação à capacitação da mão de obra é cada dia mais forte. Basta ver a evolução crescente do número de trabalhadores capacitados pelo SENAI nos últimos anos, com um incremento superior a 10% ao ano. São investimentos que as empresas estão fazendo no aprimoramento do seu capital humano. 

5) Inovar é um dos principais meios de incrementar a produção da empresa. Até que ponto o empresário brasileiro encara a inovação como uma necessidade para sua sobrevivência no mercado?
Todos nós conhecemos muitas estatísticas mostrando que as empresas brasileiras investem pouco na inovação dos seus produtos, processos produtivos e estratégias mercadológicas. Segundo o Banco Mundial, o Brasil investe próximo de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento (P&D), contra 1,5% da China, 3,4% da Coréia, 2,7% dos EUA e Alemanha. Entendo, entretanto, que uma maior alocação de recursos em estratégias inovadoras é uma questão de tempo. Quanto mais o Brasil estiver integrado ao mundo – e esta é uma tendência irreversível – maior será a pressão por inovação, não somente em novos produtos e processos, mas também nas inovações relacionadas com a comercialização dos produtos, relacionamento com os clientes e fornecedores e parcerias estratégicas. Nessa área, os maiores desafios estão na ampliação dos investimentos das pequenas e médias empresas, uma vez que as grandes já alocam um percentual maior do seu faturamento em atividades inovadoras, em atividades internas de P&D nas empresas, aquisição externa de P&D e conhecimento.
Não podemos deixar de acentuar também a relação direta entre inovação e educação. Maiores investimentos em educação certamente terão, no médio e longo prazo, efeitos positivos sobre a capacidade de inovação do País, inclusive elevando a integração universidade-empresa.

6) O empresário brasileiro vê com bons olhos os investimentos realizados visando melhores, e maiores condições, para um desenvolvimento sustentável?
Sim. Ressalto, contudo, que o desenvolvimento sustentável não é uma questão a ser vista com bons olhos ou não. O empresário deve estar ciente que o desenvolvimento sustentável é uma exigência da sociedade e tem de ser aceita e praticada, sob o risco de perda de acesso a muitos mercados. Além disso, a questão ambiental não deve ser vista unicamente como um processo custoso para as empresas, mas como o meio de produzir de forma mais eficiente, utilizando menos recursos esgotáveis, portanto, de forma mais econômica. É com esta visão que a FIEMG desenvolve o Programa Minas Sustentável, lançado em 2011. Seu objetivo é educar e assessorar as empresas para que desenvolvam processos produtivos mais sustentáveis, buscando soluções que gerem economia e receita. Enfim, a cada dia se torna mais importante entender a sustentabilidade não como um entrave, mas como uma boa oportunidade de estabelecer marcas bem avaliadas pelos consumidores e, consequentemente, mais competitivas.

7) Quais os principais gargalos ao pleno desenvolvimento da indústria nacional?
Há um cenário gradual de perda de competitividade da indústria nacional – e revertê-lo requer mudanças nas políticas governamentais. O setor industrial é o mais fragilizado da economia brasileira. O governo está ciente dessa situação, mas os avanços institucionais e a superação dos gargalos que condicionam a consolidação de um parque produtivo de competitividade mundial ainda são muito lentos e insuficientes. A indústria é, igualmente, o setor mais dependente de uma boa infraestrutura de transportes no país, considerando-se que os custos relacionados à recepção de insumos e distribuição dos produtos no mercado são extremamente relevantes. É fortemente dependente de capital de giro, pois tem um ciclo produtivo longo e padece diante uma legislação tributária complexa e voraz. Apesar da política de redução dos juros, o país ainda convive com taxas extremamente elevadas. A indústria também é o setor que arca com os maiores custos da gestão ambiental dos processos produtivos, independente do porte da empresa. Além disso, é o setor produtivo onde a mão de obra exigida é a mais cara.
Todos estes fatores - atuando juntos em um mercado globalizado e aberto à concorrência cada vez mais acirrada - exigem da indústria operar com margens cada vez mais reduzidas. A consequência é a redução na capacidade de investimentos, com implicações diretas na capacidade de modernização do parque produtivo e nos investimentos em inovação. Ao operar com margens menores por unidade de produto, o outro caminho viável para o setor seria elevar a produtividade do trabalho ou a escala de produção. Neste caso, porém, a indústria precisaria ter maior capacidade de investimentos. O efeito de tudo isso é observar que o Brasil e sua indústria não conseguem acompanhar a evolução dos níveis de produtividade do trabalho no mundo.

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