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Gestão

A economia globalizada está fora de sincronia

Lester Brown

Ambientalista fundador do WorldWarch e do EPI-Earth Policy Institute.

Site Pró-ambiente - Assessoria Ambiental

Resumo

Em Eco-Economia, Lester Brown afirma que a economia global está fora de sincronia com o ecossistema da Terra, tal como evidenciam os pesqueiros em colapso, as florestas em decadência, os desertos em expansão, os solos em erosão e os lençóis freáticos em exaustão.

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Em Eco-Economia, Lester Brown afirma que a economia global está fora de sincronia com o ecossistema da Terra, tal como evidenciam os pesqueiros em colapso, as florestas em decadência, os desertos em expansão, os solos em erosão e os lençóis freáticos em exaustão. Isto também pode ser observado na mudança do clima global, à medida que as temperaturas em elevação causam mais tempestades destrutivas, derretimento de geleiras e aumento do nível oceânico.

Na nova economia, que Brown denomina eco-economia, as energias renováveis substituirão os combustíveis fósseis destruidores do clima e uma economia de reciclagem tomará o lugar da economia do descarte. As turbinas eólicas substituirão as minas de carvão e as indústrias de reciclagem substituirão as indústrias de mineração.

Uma combinação de turbinas eólicas, células solares, geradores a hidrogênio e motores de células de combustível proporciona não apenas independência energética, mas também uma alternativa em contraposição aos combustíveis fósseis destruidores do clima.

A necessária reestruturação da economia global já começou. A mudança da era do combustível fóssil para a Era solar e do hidrogênio pode ser percebida pelas taxas de crescimento destas fontes de energia, nos últimos anos. Durante a última década, o uso de energia eólica cresceu 25% ao ano, o das células solares 20% ao ano e o da energia geotérmica, 4% ao ano. Num contraste gritante, o petróleo expandiu-se apenas 1% ao ano e o consumo de carvão caiu 1% ao ano. O gás natural, destinado a ser o combustível de transição da Era do combustível fóssil para a do hidrogênio, cresceu 2% ao ano.

A reestruturação está ganhando ímpeto. Por exemplo, de 1995 a 2000, a geração mundial de eletricidade eólica quase quadruplicou, uma taxa de crescimento só vista na indústria da informática. A Dinamarca obtém 15% de sua eletricidade do vento. No Estado de Schleswig-Holstein, no Norte da Alemanha, esta proporção é de 19% e em Navarra, na Espanha, 22%.

A energia eólica tem um potencial gigantesco. De acordo com um inventário de recursos eólicos do Departamento de Energia dos EUA, três dos Estados mais ricos em termos de vento - Dakota do Norte, Kansas e Texas - possuem potencial eólico suficiente para atender à demanda nacional de eletricidade. A China poderá duplicar sua geração elétrica atual apenas com o vento. O potencial off-shore da Europa é suficiente para satisfazer às necessidades continentais.

Avanços no desenho de turbinas eólicas reduziram os custos da eletricidade, de US$ 0,38 por kW/h no início dos anos 80, para menos de 4 centavos nos principais sítios eólicos em 2001. Há perspectiva de maiores reduções. Como conseqüência da queda nos custos, fazendas eólicas surgiram recentemente em Minnesota, Iowa, Kansas, Texas, Colorado, Wyoming, Oregon, Washington e Pensilvânia. Um quarto de acre de terra arrendado a uma concessionária local para a implantação de uma turbina eólica de desenho avançado, poderá facilmente render ao agricultor e pecuarista US$ 2.000 em royalties, por ano, e, ao mesmo tempo, fornecer à comunidade US$ 100.000 de eletricidade. O dinheiro gasto na eletricidade eólica tende a permanecer na comunidade, proporcionando renda, emprego e receita fiscal.

Um projeto, ainda em fase de planejamento no Leste de Dakota do Sul, para o desenvolvimento de 3.000 megawatts (MW) de energia eólica a serem transmitidos através de Iowa até o Centro-Oeste industrial, em torno de Chicago, não é apenas um grande projeto de energia eólica; é atualmente um dos maiores projetos energéticos do mundo.

À medida que os custos de geração eólica continuam a cair e as preocupações sobre a mudança climática aumentam, mais e mais países estão se voltando para a energia eólica.

Em Dezembro de 2000, a França anunciou planos para desenvolver 5.000 MW (1 MW supre 350 residências) de energia eólica até 2010. A Argentina seguiu com um projeto para desenvolver 3.000 megawatts até 2010 na Patagônia. Em Abril, o Reino Unido aceitou ofertas para o desenvolvimento de 1.500 MW de energia eólica no Mar do Norte. E, em Maio de 2001, a China divulgou que desenvolverá cerca de 2.500 MW de energia eólica até 2005.

A Associação Européia de Energia Eólica que em 1996 havia estabelecido uma meta de 40.000 MW para a Europa até 2010, elevou recentemente esta meta para 60.000 MW. Os Estados Unidos planejam aumentar sua capacidade em 2010 em 60%, no mínimo.
A eletricidade barata das fazendas eólicas pode ser utilizada para eletrolisar a água, produzindo hidrogênio que poderá ser utilizado para girar turbinas a gás que forneceriam eletricidade quando o vento reduzisse. O hidrogênio também é o preferido das principais montadoras mundiais para os novos motores de células de combustível que estão sendo desenvolvidos atualmente.

Os agricultores e pecuaristas que detêm a maioria dos direitos eólicos nos Estados Unidos poderão, um dia, fornecer, não apenas a maior parte da eletricidade do País, mas também o combustível que será utilizado em seus automóveis.

O uso de células solares também está em rápida expansão. Em vilarejos remotos, onde o suprimento de eletricidade tradicionalmente dependia da construção de uma usina centralizada e de uma rede de distribuição, hoje é mais barato simplesmente instalar células solares. Em povoados andinos inacessíveis, o investimento em células solares poderá ser mais barato do que a compra de velas. O mesmo ocorre com os vilarejos na Índia, onde a iluminação provém de lâmpadas a querosene.

No final de 2000, quase um milhão de residências em todo o mundo obtinham eletricidade de células solares.

Com o novo material para telhados solares desenvolvido no Japão, o caminho está aberto para conquistas dramáticas nesta nova fonte energética, quando os tetos se transformam nas usinas dos edifícios. Para muitas das quase 2 bilhões de pessoas sem eletricidade, as células solares são sua melhor esperança.

A economia dos materiais também está mudando. O desafio é passar de uma economia linear, de fluxo direto, para outra abrangente, de reciclagem. Significativos progressos estão sendo alcançados nesta frente, mas ainda não o suficiente.

Alguns países avançam. Por exemplo, 58% da produção siderúrgica nos Estados Unidos, hoje, provém de sucata. Na Alemanha, 72% de todo o papel se origina em fábricas de reciclagem. Caso todo o mundo atingisse esta taxa, a madeira necessária para a produção de celulose cairia em quase um terço.

A transição para a eco-economia, identifica tanto as indústrias declinantes quanto as emergentes. Entre as declinantes se situam a mineração de carvão, a extração de petróleo, as madeireiras e a indústria de motores de combustão interna e de produtos descartáveis. Entre as indústrias emergentes estão as de turbinas eólicas, de geração de hidrogênio, de células de combustível, de células solares, de ferrovia leve, de reflorestamento e de aqüicultura.

Entre as profissões em rápido crescimento se registram os economistas ecológicos, os meteorologistas eólicos, os engenheiros de reciclagem, os geólogos geotérmicos e os arquitetos ambientais.

Numa eco-economia, a maioria da energia é produzida localmente a partir do vento, das células solares, da hidroenergia, da biomassa e das fontes geotérmicas, oferecendo assim um novo potencial de desenvolvimento básico para os países do Terceiro Mundo, que não requer o dispêndio das suas parcas divisas que seriam desviadas para a importação de petróleo.

Dentro de uma economia abrangente de reciclagem, a necessidade de matérias primas importadas também diminuirá, reduzindo a vulnerabilidade à instabilidade política e econômica externa. Outra característica-chave de uma eco-economia é a estabilidade populacional. Nas últimas décadas, cerca de 31 países europeus e o Japão estabilizaram suas populações. Uma das chaves para isto foi a melhoria da situação das mulheres. Quanto mais educação as mulheres recebem, menos filhos geram.
Uma pesquisa do Banco Mundial revela que o investimento na educação de mulheres jovens gera um retorno econômico quatro vezes maior do que o investimento em concessionárias elétricas.

Tomadores de decisão econômica em todos os níveis - planejadores corporativos, líderes governamentais, banqueiros das áreas de investimentos e, também, os consumidores individuais - dependem dos sinais do mercado. Porém, o mercado freqüentemente não diz a verdade. Por exemplo, quando compramos um litro de gasolina, pagamos os custos da sua produção, porém não os custos de tratamento de saúde daqueles que sofrem com o ar poluído, chuva ácida ou os custos da destruição climática gerada pela queima da gasolina e outros combustíveis fósseis.

A reestruturação da economia global exigirá o trabalho conjunto de ecólogos e economistas para identificar os custos indiretos associados a um produto ou serviços específicos. Estes custos poderão, então, ser incorporados aos preços de mercado sob a forma de um imposto, e compensados através de uma redução no imposto de renda.
Esta reestruturação do sistema fiscal, que é a chave para a reestruturação da economia, não altera o nível dos impostos, apenas a sua composição. A eco-economia está começando a se estruturar. Pode ser vislumbrada nas fazendas eólicas da Dinamarca, nos telhados solares do Japão, nas usinas de reciclagem de papel da Alemanha e de reciclagem do aço dos Estados Unidos, nos sistemas de irrigação de Israel, nas montanhas reflorestadas da Coréia do Sul e na malha de ciclovias da Holanda. Quase todos os componentes de uma eco-economia podem ser encontrados em pelo menos um país. O desafio agora é, para cada nação, reunir todas as suas peças.

A construção de uma eco-economia é uma meta que não poderá ser comprometida. Para que possamos reestruturar a economia no tempo que nos resta, todos precisaremos estar envolvidos. De uma forma ou de outra, a escolha será feita por nossa geração. Mas afetará a vida na Terra para todas as gerações futuras.

UMA - Universidade Livre da Mata Atlântica - www.wwiuma.org.br

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