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Gestão

A educação ambiental nas empresas e o Sistema de Gestão Ambiental

Márcio Jardim Motta

Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas/Univ. Sta. Úrsula/RJ/85. Mestre em Dinâmica de Ecossistemas/UFRJ/91.

A Educação Ambiental como uma importante ferramenta do gerenciamento ambiental de uma empresa é inquestionável. Entretanto, na prática, o que vemos é uma outra estória. A Educação Ambiental efetuada pelas empresas é normalmente praticada fora de seus limites, geralmente nas escolas da sua área de influência, através da reciclagem ou sensibilização de professores para a questão ambiental. São ações realizadas fruto da pressão de partes interessadas – geralmente o poder público na figura dos órgãos de controle ambiental – e desprovidas de um planejamento estratégico onde todos os agentes envolvidos possam, com precisão, estabelecer objetivos e metas mensuráveis bem como indicadores que permitam aferir a eficácia de Programas desta natureza.

O fato é que utilizar Programas de Educação Ambiental exclusivamente para o público externo é não usufruir desta ferramenta para o gerenciamento ambiental. Não vou entrar no mérito sobre a importância destes Programas ou se a Educação Ambiental em comunidades é papel de uma empresa ou não. O que pretendo discutir é qual deve ser a função da Educação Ambiental dentro da empresa, que tem como público alvo os seus funcionários e como poderá estar inserida dentro de um Sistema de Gestão Ambiental.

Uma das grandes dificuldades na implantação de Sistemas de Gestão Ambiental decorre do fato das pessoas esquecerem que estamos falando de um Sistema. Discuti-se muito sobre formas e estratégias de gerenciamento, sobre a questão ambiental mas o que é um Sistema, ou melhor, que atributos deverá ter um gerenciamento ambiental para que possamos ter efetivamente um Sistema de Gestão Ambiental? Em palestras ou treinamentos introduzo este tema perguntando o que é um Sistema? Apesar dos participantes, na maioria das vezes terem suas empresas certificadas em Sistemas de Gestão da Qualidade, o que supõe uma certa intimidade de se trabalhar de forma sistêmica, as definições apresentadas são sempre "um conjunto de procedimentos, normas, instruções voltadas para um determinado objetivo, etc." Raramente vejo sendo citada a "palavra mágica" , interação. Para se ter um sistema é necessário que estruturas, departamentos, funcionários, atividades e ações estejam interagindo. O que vemos na prática são sistemas de gestão ambiental implantados ou em implementação operando de forma não sistematizada o que resulta em um baixo aproveitamento de todo o potencial de benefícios que um sistema pode trazer para o próprio Sistema de Gestão Global da empresa. Mas afinal o que a Educação Ambiental tem a ver com tudo isto?

Vejo a Educação Ambiental como o grande agente catalisador do processo de interação dentro da empresa, motivo pelo qual ela é uma ferramenta essencial para o Sistema de Gestão Ambiental. Um Programa de Educação Ambiental não pode ficar restrito a um programa de treinamento visando a sensibilização e motivação dos funcionários, e sim atuar de forma ativa no próprio posto de trabalho dos operadores. De que forma isto se dará?

O coração de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) é a identificação e análise dos aspectos e impactos ambientais significativos. Esta é a etapa que fundamenta a espinha dorsal de um SGA – Política Ambiental, Objetivos e Metas, Programa de Gestão Ambiental e Controle Operacional. Infelizmente vejo esta fase sendo conduzida e elaborada pelos departamentos de meio ambiente ou pelos "especialistas" das empresas, geralmente funcionários de nível superior. Como resultado, poderemos até ter uma ótima identificação de aspectos ambientais, mas em compensação, teremos o início de um SGA extremamente centralizado e o mais importante, a perda de uma excelente oportunidade de começarmos um processo de conscientização. Entendo que, quem deverá efetuar a identificação dos aspectos ambientais é quem realiza a tarefa, assessorado pelo grupo de implantação devidamente capacitado em metodologia de identificação e análise de aspectos e impactos ambientais. É claro que o processo é mais lento, mas a componente educacional é importante para os operadores entenderem que a sua tarefa está associada a um determinado processo (fluxograma do processo), e que nesta tarefa há entradas de materiais e insumos e saídas, que de um modo geral, são os próprios aspectos ambientais (fluxograma ambiental). Desta maneira é reconfortante escutarmos frases do tipo "nossa como o que eu faço gera coisas !" Esta é a base de um programa de sensibilização, fazer com que os funcionários conjuguem o verbo poluir na primeira pessoa, EU POLUO.

A fase de implantação dos controles operacionais, ou seja, a elaboração dos procedimentos operacionais – os famosos PRO's - deverá seguir a mesma estratégia, já que o responsável pela geração de um determinado aspecto ambiental significativo deverá também ter participação ativa nesta fase. Volto a realçar que este processo é mais lento, mas em compensação vamos estar construindo um Sistema de Gestão Ambiental que estará permeando até o "chão da fábrica" e que realmente é eficaz para a gestão da empresa e não simplesmente cumprir um determinado requisito visando a certificação. E não podemos esquecer, que diferente do sistema da qualidade, o Sistema de Gestão Ambiental realmente se dá no "chão da fábrica".

É necessário termos clareza de que um Sistema de Gestão Ambiental não tem como objetivo cuidar do meio ambiente, e sim a melhoria do desempenho ambiental e operacional de uma organização.

Os programas de treinamento visando a conscientização e a motivação dos funcionários não podem ser apenas informativos e estarem dissociados de um Programa de Educação Ambiental. Infelizmente, vejo que na prática estes treinamentos são realizados apenas para cumprirem requisitos, com o objetivo de certificar o SGA.

Um Sistema de Gestão Ambiental bem sucedido exigirá mudanças nas atitudes, nos padrões de comportamento e na maneira de pensar por parte de todos os empregados . Para se obter este compromisso com a gestão ambiental é necessário que: a) Os empregados tomem consciência das questões ambientais que a empresa está enfrentando e de que forma suas ações poderão influenciar o desempenho ambiental da empresa; b) Os gerentes estejam conscientes da importância de um bom controle e de uma boa gestão ambiental; c) Os gerentes e os empregados com responsabilidades ambientais tenham um conhecimento técnico detalhado para assegurar o atendimento às normas e exigências comerciais e legais.

Este processo de mudança começa com o despertar da compreensão das questões ambientais, da necessidade da gestão ambiental e dos elementos do processo de gestão ambiental em cada pessoa. Não devemos esquecer que qualquer processo de mudança começa com a conscientização individual. Todo funcionário tem que estar consciente do por que, o que, quando, onde, quem e como, em relação as suas tarefas. Portanto um eficaz programa de conscientização não pode ser apenas informativo e nem ficar eternamente na "sensibilização" das questões ambientais globais e sim ter uma postura construtiva onde há o envolvimento de todos na discussão das questões ambientais da empresa, seu desempenho ambiental e o próprio desempenho operacional. Os empregados identificarão e controlarão os aspectos ambientais significativos quando souberem o que devem procurar, e compreenderem o que estão vendo. Não devemos esquecer que um dos objetivos básicos de um SGA é sair de uma postura corretiva para uma postura preventiva.A Política de Meio Ambiente é geralmente informada aos funcionários, mas não é realmente implementada, também pelo fato de não ocorrer uma discussão sobre as suas consequências na rotina dos funcionários tais como: a importância do atendimento à Política Ambiental; as funções e as responsabilidades decorrentes do atendimento à Política Ambiental e exemplos práticos da própria empresa onde estejam sendo cumpridos os requisitos da Política Ambiental.

Outros requisitos que podem e devem ser objeto do Programa de Educação Ambiental são os sistemas de comunicação interna e externa.

Um bom exemplo no que diz respeito de como a Educação Ambiental pode trabalhar a comunicação interna é em relação a comunicação das responsabilidades em toda a empresa, de forma que todos saibam exatamente o que cada um deve fazer. Problemas comuns encontrados e que poderão criar obstáculos ao desempenho ambiental e que poderão ser objeto de trabalhado da Educação Ambiental são: a) Todos acham que alguma pessoa está tomando as providências necessárias, mas na verdade ninguém está, e isto leva a falhas no sistema; b) Empregados acham que uma questão em particular "não é da minha conta" ; c) A duplicação dos esforços pode visar a realização do mesmo objetivo em diferentes direções.

Em relação a comunicação externa, é através da consideração das expectativas/demandas das partes interessadas, que poderá justificar a existência de um Programa de Educação Ambiental voltado para a comunidade o que permitirá em consonância com o próprio SGA da empresa, a elaboração de parâmetros que possam aferir sua eficácia no que diz respeito ao cumprimento dos seus objetivos e metas. Na verdade o que deveremos ter é um Programa de Educação Ambiental único, onde a componente de público interno e externo sejam integradas e complementares.

Como visto, um Programa de Educação Ambiental tem que ser um conjunto de atividades sistematizadas e com a participação ativa dos diversos setores da empresa e que auxiliem na elaboração de indicadores ambientais e operacionais que demonstrem não só os benefícios de um Programa de Educação Ambiental como também do próprio Sistema de Gestão Ambiental. Somente deste jeito teremos a educação ambiental realmente como uma ferramenta fundamental do Sistema de Gestão Ambiental e não como um programa isolado de causa nobre, mas distanciado da realidade operacional e ambiental da empresa e sempre passível de ser o primeiro item a ser cortado em revisões de orçamento.

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