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Uma bússola para a economia verde

Marina Grossi

A economista Marina Grossi é Presidente Executiva do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Com experiência de quem já atuou como negociadora do governo federal em Conferências do Clima da ONU e em instituições da sociedade civil, Marina lidera o CEBDS em diversas frentes de ações. Entre essas ações está o funcionamento das oito Câmaras Temáticas (água, energia, construção, finanças, legislação ambiental, comunicação e educação, entre outras) e iniciativas específicas na área de biodiversidade, mudanças do clima e mercados inclusivos. À frente do CEBDS, Marina assume também o papel de interlocutora das empresas conectadas com a sustentabilidade junto aos governos e à sociedade civil organizada em geral, como universidades, centros de pesquisas e organizações não-governamentais de diferentes áreas de atuação.

Revista IETEC

Lançado em 2010 pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), o relatório “Vision 2050: a new agenda for business” vai balizar nas próximas quatro décadas o planejamento estratégico de empresas em todo o mundo. A produção desse documento envolveu 29 empresas globais de 14 setores da indústria em debates com mais de 200 especialistas de 20 países, entre os quais o Brasil, representando o setor privado, instituições governamentais e da sociedade civil. Essa união de esforços ampliou o escopo do estudo, despertando também o interesse de outros setores, especialmente de formuladores de políticas públicas.

Em resumo, o relatório faz um conjunto de recomendações para que a população global de 9 bilhões de habitantes (projeção para daqui a 40 anos) tenha acesso a bens e serviços essenciais em 2050, dentro dos limites do Planeta. Para isso, será preciso uma mudança profunda, técnica e adaptativa, do modelo de negócios e do padrão de desenvolvimento. Caso contrário, ou seja, se mantivermos os modelos atuais, chegaremos à primeira metade deste século precisando de recursos naturais correspondentes a 2,3 planetas Terra.
Como participante da produção do Vision 2050 e como parte da rede de conselhos do WBCSD, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) percebeu a oportunidade de adaptar as análises e recomendações do documento para a realidade do nosso país. O primeiro passo foi traduzir o texto. O segundo passo está em movimento com o processo de “tropicalização” do relatório.
O documento original expõe uma visão global, das metas a serem atingidas por todos os países. Mas cada país tem as suas peculiaridades, seus desafios e suas oportunidades. Um exemplo bem significativo: o relatório global aponta como cenário ideal que o Planeta chegue a 2050 utilizando uma matriz energética composta por 50% de fontes renováveis. No Brasil de hoje, já temos uma matriz com 40% de fontes renováveis. Por essa e outras razões – como disponibilidade de biodiversidade, água doce, sol, florestas e áreas disponíveis para cultivo – o Brasil é apontado pelos especialistas como o país de grande porte em melhores condições de atingir as metas capazes de conduzir o mundo para um novo patamar de desenvolvimento, no qual as demandas econômicas, sociais e ambientais estejam mais harmonizadas.
Contudo, não bastam as dádivas da natureza. Para que as metas sejam atingidas no Brasil precisamos trabalhar muito. Nossos passivos ambientais e sociais são enormes. Nosso modelo de governança ainda é extremamente precário. São desafios que precisam ser vencidos. Ainda não conseguimos avançar em questões básicas, como no combate à destruição de florestas. O desmatamento na Amazônia – um dos grandes trunfos do Brasil neste século – tem sido reduzido, mas não ao nível do que se espera de um país com potencial de liderar a corrida verde nas próximas décadas.
Os desafios não param aí. A rede de esgoto do país atende a apenas 44% dos domicílios brasileiros e apenas 1/3 do esgoto coletado recebe algum tipo de tratamento, de acordo com o Instituto Trata Brasil. Dados do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome revelam que o estágio de situação de pobreza extrema ainda atinge 16,2 milhões de brasileiros. O índice de analfabetismo no Brasil – 9,6% dos brasileiros maiores de 15 anos - supera a média da América Latina, que é de 8,3%. Estamos muito atrás dos nossos vizinhos como Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai e Colômbia.
Para nos ajudar a construir um novo modelo de governança temos priorizado o processo de adaptação do Visão 2050 para a realidade brasileira. Tem sido uma experiência extremamente rica, com uma participação muito consistente das empresas instaladas no Brasil e instituições de outros setores. O rigor metodológico e a representatividade que estamos tendo nessa adaptação resultarão num documento imprescindível para os líderes atuais e do futuro próximo. O ponto alto dessa adaptação aconteceu durante o 4º Congresso Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável, o Sustentável 2011, realizado em setembro no Rio de Janeiro. Enfatizamos a questão da governança e trabalhamos em cima de nove pontos-chave: economia, desenvolvimento humano (incluindo as questões de saneamento e saúde pública),valores das pessoas (educação, emancipação das mulheres...), energia, edificações, mobilidade, consumo e insumos, biodiversidade e agricultura.
O texto final da versão brasileira do Visão será lançado em maio deste ano, um mês antes da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Há um clima de expectativa e esperança em torno dos compromissos globais que poderão ser formalizados durante a realização do megaevento da ONU marcado para o próximo mês de junho no Rio de Janeiro. Será um momento de  reflexão sobre o pouco que foi feito nos últimos 20 anos e o muito que precisamos fazer para vencer os mais urgentes desafios econômicos e socioambientais, no Brasil e no mundo - oferta de energia, água limpa e alimento; segurança climática; manutenção e recuperação de ecossistemas; erradicação da pobreza, entre outros.
A partir do caminho apontado pelo Visão 2050, nosso grande desafio será implementar parcerias bem estruturadas e transparentes entre empresas, governos e instituições civis para transformar a realidade, seja na formulação de políticas públicas inovadoras, seja na tomada de decisão do setor privado que deve acelerar o estabelecimento de metas, inclusive voluntárias.
No caso do Brasil, estamos confiantes de que o relatório tropicalizado “Visão 2050 – a nova agenda para os negócios no Brasil” prestará uma contribuição muito relevante para começarmos a construir, desde já, uma sociedade brasileira economicamente saudável, socialmente justa e ambientalmente responsável. Será uma espécie bússola para o novo modelo de desenvolvimento.

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