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Educação :: Geral

As ONG's e a educação ambiental no Brasil

Cristina Alves de Carvalho

Consultora do Centro Europeu de Pesquisa e Treinamento em Educação Ambiental (ERTCEE-Bradford, Reino Unido) e da Sistemas e Soluções e Empresariais (Sempre).

As Organizações Não-Governamentais (ONGs) da área de meio ambiente têm desempenhado uma importante função no campo da educação ambiental no Brasil, assim como em países da Europa. Alguns autores apontam as ONGs como um potencial no desenvolvimento no país, e ainda não estabelecida no setor formal da educação (currículo), iniciativas no setor não formal tem ocorrido em diferentes partes do Brasil. A maioria destes trabalhos informais tem sido empreendidos por ONGs.

De acordo com o Censo (10/1993), o Brasil possui mais de 5 mil ONGs, o dobro do número que possuía a dois anos atrás. Deste total, 40% são chamadas "organizações ecológicas". Este grupo compõe-se desde entidades com ações puntuais --que são a maioria-- até aquelas com trabalhos em nível nacional. As ONGs podem ser divididas entre entidades conservacionistas, as últimas englobando sindicatos, grupos empresariais, instituições desenvolvimentistas e de defesa dos direitos humanos e das minorias.

As organizações conservacionistas se dedicam aos aspectos ligados à interrelação da espécie humana com seu ambiente natural, com a preocupação de conservar os recursos biológicos para estas e para as próximas gerações. Poderiam ainda ser subdivididas entre as ativistas e as técnicas, ambas importantes para o avanço das questões maiores. É necessário distinguir entidades que desempenham atividades concretas ligadas à conservação da biodiversidade e aquelas de cunho social ou desenvolvimentista que reconhecem em si mesmas uma missão conservacionista.

Muitas das ONGs iniciam suas atividades de educação ambiental com o objetivo de induzir um comportamento positivo com relação ao meio ambiente. Outras se envolvem neste campo, visando encorajar vítimas de problemas ambientais a tomar atitudes contra aqueles que causaram estes problemas. No entanto, pelo próprio processo da educação ambiental no Brasil, há uma tendência à execução de trabalhos isolados, sem interação e cooperação entre instituições (governamentais, empresas, universidades e ONGs), aumentando riscos de duplicação. Desta maneira, interessantes experiências de algumas instituições, que poderiam ser utilizadas por outras, são freqüentemente ignoradas.

O desenvolvimento de educação ambiental no Brasil iniciou-se em 1975, com a reformulação do currículo das escolas secundárias no contexto de ciências e físicas pela Fundação Educacional de Brasília. Este projeto beneficiou mais de 4.200 professores de escolas secundárias e contou com textos modulares e material didático. Seguindo-se a este, em 1977 foi criado o "projeto das Ciências de Meio Ambiente", introduzido nas escolas primárias de São Paulo. De 1978 à 1980, o Ministério da Educação desenvolveu o "projeto Ecologia para Escolas Secundárias" à nível nacional o qual não funcionou eficientemente devido a problemas de distribuição desigual de verbas entre os estados participantes.

Em 1983, como resultado da implementação do Plano Nacional de Conservação de Meio Ambiente, foi criada a Comissão Diretora para Planejamento para o Meio Ambiente, o qual representou o marco inicial para projetos de educação ambiental que incluíam a participação da comunidade. De 1985 à 1989, o Governo Federal criou o programa "Nossa Natureza", como resultado da pressão internacional contra o desmatamento da floresta amazônica. O objetivo do programa era o desenvolvimento de iniciativas de educação ambiental na Amazônia Legal (parte do ecossistema amazônico localizado no território brasileiro). O projeto foi encerrado em 1990.

Iniciativas de educação ambiental para a proteção de espécies de primatas e aves ameaçadas de extinção no Brasil, por exemplo, são idéias geradas no seio de ONGs conservacionistas de cunho técnico. São bons exemplos, os projetos de Educação Ambiental para a preservação de espécies ameaçadas de extinção como: arara-azul-de-Lear (Anodorhynchus leari), Canudos (Bahia), Fundação Biodiversitas (BH/MG-1990); "muriqui"(Bracteles arachnoides), Fundação Brasileira para Conservação da Natureza (FBCN-1973), hoje executado pela Fundação Biodiversitas; Sauim-de-coleira (Saguinus bicolor bicolor), Fundação Vitória Amazônica, Amazonas 1992, mico-leão-dourado (Leontopithecus rosália rosália), Associação Mico-Leão-Dourado, Poço das Antas (RJ-1983) entre outros.

Os projetos de educação ambiental para a proteção da arara-azul-de Lear e do mico-leão-dourado, por exemplo, desenvolvem atividades em nível formal e não-formal. No setor formal, estes dois projetos vem realizando cursos de treinamento para professores de 1o e 2o graus, beneficiando cerca de 150 rofessores locais. No setor não-formal, campanhas publicitárias, palestras, teatros de rua e repasse de tecnologias alternativas para líderes comunitários (ex: forno solar e clorador) também fazem parte deste escopo de atividades.

Sem minimizar os fatores sociais e econômicos que caracterizam as regiões destes projetos, principalmente na Bahia (sertão) é possível notar uma atitude positiva da comunidade com relação a estas espécies e ao ecossistema como um todo. A população remanescente de A. leari na natureza cresceu de 61 (7) para cerca de 104 indivíduos (comunicação pessoal: Ilmar B. Santos, Fundação Biodiversitas 1994). Isto se deve também ao fato da descoberta de um grupo de araras-azuis na região de Curaçá estimado 14 indivíduos. É bom ressaltar que ao lado das ações de educação ambiental, outros projetos tem sido também desenvolvidos, como estudos sobre a biologia destes animais; manejo de espécies importantes para sua alimentação (ex. licuri, no caso da arara-azul); maior fiscalização das áreas de ocorrência; e compra de terras para a implementação de reservas. É preciso salientar que alguns destes projetos estão ou tentam se entegrar e/ou cooperar com algumas instituições locais, regionais, nacionais e internacionais como exemplo, prefeitura, secretaria de educação, IBAMA, Fundação O Boticário, Conservação Internacional, Fundo Mundial para a Natureza (WWF) entre outras mesmo que de uma maneira informal.

ONGs e projetos urbanos de educação ambiental

Um bom exemplo de projeto urbano são as atividades desenvolvidas pelo grupo ecológico da cidade de São Paulo. O grupo tem levado crianças de escolas e, simultaneamente, apontando os principais problemas ambientais, por exemplo, congestionamento de tráfico; poluição do ar e depósito de lixo (1). Após a caminhada as crianças relatam oralmente o que viram e também descrevem o que mais lhes impressionou. Outro grupo, trabalhando na cidade de Salvador-BA promove educação ambiental mostrando a crianças e adultos a poluição da areia e do ar das praias da cidade nos meses de verão, motivando assim a participação das pessoas e reduzindo o número de poluidores.

A evolução da educação ambiental no Brasil é ainda tímida. A maioria das iniciativas positivas na área de meio ambiente num contexto isolado. Entretanto, projetos para a proteção de espécies ameaçadas por exemplo, tem demonstrado ser uma grande oportunidade para estimular a mudança de atitude, não somente com relação a preservação de uma única espécie, mas do ecossistema como um todo. A contribuição para comunidade local é significante, especialmente em locais de baixa renda onde se identifica a carência na área de alimentação, educação, saúde, etc. por outro lado, projetos urbanos que lidam com os principais problemas ambientais das cidades, se constituem no ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre esta realidade visível e gritante.

Entretanto, há uma série de dificuldades que restringem o desenvolvimento destes projetos no Brasil, como a falta de suporte financeiro (incluindo logístico e técnico); de estrutura dos projetos (monitoramento e avaliação) e de integração e cooperação entre instituições. Embora, não haja dúvidas sobre a importante contribuição das ONGs no processo de evolução da educação ambiental no Brasil, é preciso salientar que a continuidade destes trabalhos tem sido altamente ameaçada por estes fatores. A limitação de recursos disponíveis p[ara educação conservacionista demanda um efetivo uso de avaliações para assegurar o sucesso dos projetos. Indubitavelmente, as ONGs, isoladas ou em grupo, jamais terão capacidade financeira e logística para substituir a ação governamental. No entanto, sem a sua contribuição, a educação ambiental no Brasil é preciso salientar que a continuidade destes trabalhos tem sido altamente ameaçada por estes fatores. A limitação de recursos disponível para educação conservacionista demanda um efetivo uso de avaliações para assegurar o sucesso dos projetos (8). Indubitavelmente, as ONGs isoladas ou em grupo, jamais terão capacidade financeira e logística para substituir a ação governamental (3). No entanto, sem a sua contribuição, a educação ambiental no país permaneceria inerte.

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