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Tecnologias Limpas

Indústrias criativas e o futuro

Antônio Márcio Buainain

Professor do Instituto de Economia da Unicamp | e-mail: buainain@eco.unicamp.br

O Estado de S.Paulo - 07/09/2010

Está em questionamento a sustentabilidade do modelo de sociedade que emergiu e se consolidou após a 2.ª Revolução Industrial, baseado na produção e no consumo de bens intensivos em recursos naturais e energia por uma parcela numerosa, mas restrita, da população mundial. As transformações na sociedade global nos últimos 20 anos - mudanças nas economias ditas socialistas, incorporação da China à economia de mercado, ampliação e consolidação da União Europeia, crescimento da Índia e recuperação econômica da América Latina - adicionaram algumas centenas de milhões de consumidores ao mercado global, suficientes para evidenciar a insustentabilidade do modelo. Crescer é preciso, mas o crescimento não pode continuar dependendo da produção de automóvel, mesmo o mais econômico.

Na sociedade atual, a desejável ascensão dos mais pobres se traduz na reprodução dos padrões de consumo dos grupos de renda mais elevada e, nos marcos do atual modelo, essa parece ser a única trajetória possível para manter o crescimento e o dinamismo da economia mundial. Mais ainda, deve-se reconhecer que o modelo tem tido êxito ao incorporar milhões de pessoas que vêm deixando o meio rural atrasado e milhões de pobres urbanos marginalizados ao que muitos chamam de "cidadania". Mas todas as luzes de alerta e muitos sinais vermelhos já estão acesos e apontam para a crescente dificuldade em manter tal padrão: sem ser catastrofista, teme-se que o aquecimento global, a escassez relativa de matérias-primas e desastres ambientais como o da British Petroleum sejam só pontas de um iceberg que pode levar a pique o Titanic global num futuro não muito distante.

Nesse sentido, a conciliação entre a manutenção do necessário dinamismo econômico e da sustentabilidade da vida no planeta requer mudanças no padrão de produção e consumo para bens e serviços cada vez mais intensivos em conhecimento e menos absorvedores de recursos naturais. É preciso canalizar o sonho de consumo de ricos, classes médias e emergentes para bens e serviços menos intensivos em "natureza". Neste contexto, vem ganhando importância a economia e indústria criativa, objeto do seminário Propriedade Intelectual e Economia da Cultura - Pilares da Indústria Criativa (http://www.criativaeconomia.com.br/).

Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi), a contribuição econômica do segmento é importante, mas ainda pequena, variando de em torno de 2% a 2,5% do PIB em países como Bulgária, Jamaica e Ucrânia a quase 10% nos EUA e na Austrália, com um número grande de países na faixa intermediária de 4% a 6%. Em que pese a reconhecida manifestação de criatividade do povo brasileiro, o Brasil estaria, atualmente, entre os primeiros. Os estudos da Ompi revelam que a indústria criativa é das mais democráticas e tem grande capacidade de absorção de mão de obra, formal e informal, de todos os tipos e níveis, de artistas e artesãos a técnicos, engenheiros, cientistas e assim por diante. Observa-se ainda a participação de todo tipo de empresas, das grandes corporações às pequenas e micro que gravitam em torno das cadeias produtivas mais estruturadas.

As potencialidades para o Brasil são enormes. O carnaval é apenas um exemplo de manifestação com capacidade para absorver milhares de pessoas e sustentar economias locais importantes. Moda, teatro, cinema, literatura, artes plásticas e visuais em geral, design, softwares, TV, arquitetura, manifestações populares, publicidade e turismo têm força para assumir papel-chave na economia do futuro. Uma indicação importante é que, ainda que possa parecer, a indústria criativa não nasce, evolui e se consolida por geração espontânea. Requer um esforço de planejamento, incentivos econômicos e um ambiente institucional e social apropriado e estimulador. Criatividade, empreendedorismo e inovação são trigêmeos siameses, movidos a educação e liberdade. São nesses dois pilares que o Brasil deve investir para promover a economia criativa e um futuro sustentável.



 

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